A corrupção sistêmica presente na política brasileira em conjunto com a operação lava-jato e polarização da população vêm rendendo inúmeras produções audiovisuais nos últimos anos. Destacam-se os documentários “Democracia em Vertigem” da diretora Petra Costa (indicado ao Oscar) e “O Processo” de Maria Ramos. Já a controversa série da Netflix “O Mecanismo”, do premiado diretor Jose Padilha, causou estranhamento ao abordar a temática de forma ficcional.

Em sua grande maioria, as obras são centradas no ponto de vista dos envolvidos no processo, sejam eles políticos, empresários ou juristas.

Porém no filme “Três Verões” a atenção é voltada justamente para aqueles que sofrem indiretamente as consequências destes atos, praticados por seus chefes ou familiares. Dirigido e roteirizado por Sandra Kogut em conjunto com Iana Cossoy Paro, a obra lançada recentemente via streaming em virtude da pandemia, tem como protagonista Madá, governanta da casa de veraneio de Edgar (Otávio Muller), empresário preso por envolvimento em um grande esquema de corrupção. É através da perspectiva da personagem, vivida pela talentosa atriz Regina Casé, que somos apresentados à história.

Ambientada na cidade de Angra dos Reis, luxuoso balneário localizado na Costa Verde carioca, a produção desenvolve-se em três atos episódicos, situados nas férias de verão durante três anos consecutivos: 2015 a 2017. Durante este período o espectador acompanha o “auge” e “derrocada” do sistema corrupto que sustenta a família de Edgar e, consequentemente, seus funcionários.

Enquanto em 2015 assistimos a uma casa cheia de amigos e fartura, onde há possibilidade de crescimento econômico inclusive para os funcionários – que com a ajuda do patrão visam montar um negócio próprio – em 2016 iremos acompanhar a solidão e os reflexos da prisão do até então provedor do local.

Sendo assim, no segundo ato do filme testemunhamos o crescimento do arco dos funcionários da casa. O desamparo financeiro leva os mesmos a se reinventarem e cruzarem limites pré-estabelecidos na relação quase colonial que possuíam com seus patrões. Se antes a entrada na piscina ou o uso da lancha era proibido, agora eles tornam-se instrumentos de trabalho dos que anteriormente cuidavam da manutenção do local para que terceiros o usufruíssem.

Em paralelo, também acompanhamos a decepção e o abandono de Seu Lira, pai do empresário, em uma comovente atuação de Rogério Fróes – pai da atriz Gisele Fróes, que atua na produção como sua nora, Marta.

Intercalando drama e comédia, Regina Casé é capaz de segurar uma produção de roteiro problemático, em que a forma escolhida para retratar aqueles cujo ponto de vista é central na trama não agrada. A exagerada inocência e ignorância da classe menos abastada da história torna-se caricata em diversos momentos, desqualificando-a.

Não fica claro para o expectador se muitas das cenas que rendem gargalhadas são para ponderação ou puro e simples alívio cômico. Com exceção do depoimento dado por Madá, há pouca ou nenhuma carga dramática destinada a estes personagens.

Por último, mas não menos importante, faz falta uma reflexão acerca da temática base do filme: a corrupção. A narração final em off conta os desdobramentos finais da trama, mas pouco toca no assunto – e nem mesmo o destino de Edgar aborda o tema.

Faz parecer que as roteiristas estão acostumadas com o sistema, assim como a própria população diante de tantos absurdos expostos diariamente. Um final diferente da realidade poderia ter levantado um questionamento pertinente para o expectador e alavancado o status da produção, que diverte e acerta na escolha da história, mas não exatamente na maneira que o ponto de vista dela foi abordado.

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