SP: Crônicas de Uma Cidade Real | Crítica

    Por Leonardo Guizardi

    Logo na abertura de SP: Crônicas de Uma Cidade Real, além dos belos planos filmados com drones, que retratam diversas construções conhecidas e históricas da capital paulista, somos apresentados ao conceito de que em uma cidade tão grande e miscigenada – a mais populosa da América do Sul – existe potencial para que cada cidadão viva sua própria crônica, ou até já esteja vivendo.

    É um ponto de partida muito rico a ser explorado, pois, em teoria, seguindo esse preceito de potencialidade do surgimento de narrativas vindouras das vidas de pessoas comuns que podem ser protagonistas de suas próprias histórias marcantes, caberia explorar a densidade populacional de uma cidade que parece estar sempre à beira de uma erupção, do ponto de vista daqueles que vivem o cotidiano da selva de pedra. Afinal, o urbano interfere no humano e vice-versa.

    Porém, o que realmente ocorre nas cinco distintas histórias antológicas, é o abandono quase total desse conceito, causando a sensação de que aquelas narrativas poderiam estar acontecendo em qualquer outro lugar do Brasil ou do mundo. A cidade de São Paulo não é, ao contrário do que o título sugere, uma personagem por aqui. Não demora para percebermos, logo na primeira crônica, que o que dita as regras e guia a temática do longa é, na verdade, o cinema de gênero baseado na violência, seja pelo suspense, seja pela ação policial.

    Imerso nos gêneros de cada uma de suas narrativas, o diretor Elder Fraga consegue criar tensão e certo incômodo, salvas as proporções de sua produção, apresentando bons enquadramentos e tomadas criativas (como aquelas que utilizam o recurso de ponto de vista), mas peca em algumas linhas de texto expositivas, embora pareça que tal exposição é potencializada pela falta de experiência de alguns dos atores e pela urgência em estabelecer o que está ocorrendo, por conta do curto tempo reservado para cada história.

    Justamente pelo diretor se apegar tanto ao cinema de gênero e pouco na proposta geográfica do filme, é que os melhores momentos acontecem nas histórias em que os personagens são mais aprofundados, ainda que de forma ligeira, e somos melhores apresentados às suas motivações. Isso potencializa a aura de violência visceral presente, por exemplo, em situações de cárcere privado ou de tortura.

    Tudo fica mais crível quando temos um vislumbre do que move aquelas situações – vide o pai em busca de vingança a todo custo – e não quando somos jogados em determinadas situações de forma aleatória, o que teria mais potencial se a cidade interferisse, de fato, nas narrativas. Prova disso, talvez, esteja no diálogo que mais remete à cidade em si, mesmo sem citá-la: o debate no balcão de um bar sobre assassinatos de policiais à paisana. Tudo ali tem uma aura mais urbanizada, seja pelo ambiente visto lá fora, com ruas finalmente sendo mostradas fora das cenas de transição entre uma história e outra, seja pela conversa sobre uma situação recorrente na capital paulista, ou até pelo bar, um estabelecimento tão familiar nas ruas de São Paulo.

    Fechando a equação com méritos e deslizes, Elder Fraga entrega uma amostra de cinema autoral com muito carinho envolvido – a produção é totalmente independente – onde fica evidente que ali surgiu uma ideia determinada a sair do papel, guiada por um conceito urbano paulistano que não procede ao tentar localizar o espectador e evocar o espírito da cidade de São Paulo em si, mas que tem sucesso em demonstrar que o cinema nacional tem potencial para ser sustentável e ainda explorar formatos não tradicionais, como antologias que prendam seu público com autenticidade e criatividade.

    ________

    Escute nosso PODCAST no: Spotify | Google Podcasts Apple Podcasts | Android | RSS
    Entre para o nosso grupo no facebook AQUI
    Curta nossa página AQUI
    Siga-nos no instagram@sitecanalclaquete
    .
    .
    .
    Como TARANTINO filma uma cena?