Segunda Chamada | Piloto | Crítica

    Por Luísa Newlands

    Antes de escrever esse texto, me perguntei diversas vezes se deveria fazê-lo. Acho que é a primeira vez que não me sinto totalmente preparada para escrever uma crítica, mas não por falta de conhecimento ou argumentos. Não me senti preparada porque, sinceramente, eu estou longe do lugar de fala dos personagens do núcleo central. Eu sou mulher, branca, moradora da Zona Sul do Rio de Janeiro; estudei em escola e faculdade particular a vida inteira; tive acesso à cultura e esportes e já viajei para o exterior.

    Eu não falo isso com orgulho. Eu preciso reiterar essas características porque reconheço totalmente minha posição de privilégio na sociedade. Logo em uma das primeiras cenas da série, um plano sequência (excelente, diga-se de passagem) percorre o pátio do colégio, e percebi como aquela realidade é totalmente distante da minha.

    Uma adolescente passa com o filho bebê no colo desesperada por ter que levá-lo à escola; outra adolescente grávida é acompanhada por um amigo para não ser acertada pela bola de futebol; uma adolescente trans é ridicularizada pelos homens; uma senhora de pelo menos 70 anos caminha para o corredor preparada para a aula…

    Débora Bloch, Paulo Gorgulho, Silvio Guindane, Hermila Guedes, and Thalita Carauta in Segunda Chamada (2019)

    Talvez a personagem que consigo ter um pingo de identificação é a professora Lúcia, interpretada pela maravilhosa Débora Bloch. Lúcia se ausentou da Escola Carolina Maria de Jesus por um tempo (por um motivo ainda não revelado) e acabou de voltar a lecionar. Ela me lembrou a professora Gruwell, do meu filme favorito, Escritores da Liberdade.

    Humana e idealista, ela escolheu lecionar em uma escola pública porque acredita no potencial de mudança da educação na vida daqueles jovens e adultos. Eu nunca lecionei em uma escola pública, tampouco participei de algum projeto social de valor tão importante quanto, mas acredito tanto quanto ela que a educação pode transformar vidas.

    Enquanto Lúcia apresenta a escola para o novo professor de biologia, Marco Antônio (Silvio Guindane), que na verdade é professor de artes de formação, ela também apresenta a realidade da escola para o espectador. Lúcia comenta que a luz do corredor deu curto circuito há um mês, e Marco pergunta por que ainda não foi trocada.

    Ela ri e afirma que na escola “todo dia é um curto circuito” e que a maior dificuldade da escola não é a estrutura, e sim a freqüência escolar. Os alunos trabalham o dia todo e estudam a noite, não são todos que conseguem suportar o tranco. Mas ela diz que sua função é fazer com que eles acreditem que são capazes.

    Resultado de imagem para segunda chamada série 2019

    De certa forma, o episódio piloto de Segunda Chamada me lembrou bastante Escritores da Liberdade como um todo. A principal diferença é que Lúcia já é amada e respeitada pelos alunos desde o início, mas assim como Gruwell, faz questão de entender individualmente as necessidades de cada aluno. Sua antagonista é a professora Sônia (Hermilia Guedes), que embora também seja uma boa professora, acredita que seus problemas são iguais ou maiores do que de seus alunos.

    A particularização de cada história também lembra muito o filme de 2007, com a exceção de que não há livros escritos pelos alunos para contar suas lutas. A narrativa faz isso por si só de um jeito tocante e cativante. Cada aluno tem sua luta diária: Maicon Douglas (Felipe Simas) trabalha como motoboy o dia inteiro e não consegue se concentrar nas aulas devido ao cansaço; Natasha (Linn da Quebrada) é uma aluna trans e não consegue utilizar o banheiro por medo da repressão; Solange (Carol Duarte) foi mãe precoce e não tem com quem deixar o filho e nem como alimentá-lo; Dona Jurema (Teca Pereira) é uma senhora que está concluindo os estudos agora… Cada universo é apresentado de maneira sutil, mas também profunda.

    As séries da Globo tem um público mais específico e, por isso, não fazem questão de ser muito didáticas. Digo isso porque, somente em um único episódio, foram tecidas diversas críticas sutis a respeito do sistema escolar vigente, ao preconceito enraizado na sociedade brasileira e à falsa meritocracia.

    Em uma cena primorosa, a professora de matemática Eliete (Thalita Carauta) pede para os alunos dividirem 998 reais por 30. Quando uma das alunas faz o cálculo, Eliete diz que não há milagre da multiplicação, e eles precisarão aprender a viver com aproximadamente 33 reais por dia.

    Do outro lado, o novo professor Marco Antônio tem seu carro roubado na porta da escola. Quando ele é devolvido, vemos que ele dirige um modelo recente Jeep. Diretamente da escola, ele vai para uma exposição de arte e, enquanto bebe um champagne, percebe que todos os garçons são negros, enquanto os visitantes da exposição, todos brancos. A cena não tem uma única fala. A crítica está totalmente implícita nos planos fechados em cada um dos garçons, enquanto ao fundo toca “ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro”. (importante ressaltar que Silvio Guindane também é negro)

    Segunda Chamada foi lançada em um momento certeiro em que precisamos continuar discutindo sobre educação, igualdade e direitos. Com uma narrativa tocante, a série convida o espectador a entrar no universo de uma escola pública periférica e observar a realidade lá de dentro.

    No momento em que vivemos, em que o Presidente da República e o Ministro da Educação questionam o trabalho dos professores afirmando serem eles doutrinadores, se transformar numa testemunha ocular desse microcosmos nos faz entender que a realidade é muito mais complexa do que esses discursos rasos apresentam. E, principalmente, também nos faz repensar nossos privilégios.

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