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Rainha de Copas | Crítica

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  • 2019
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Por Michel Gutwilen

Existem pessoas que aceitam o processo de envelhecimento como parte natural do ciclo da vida. A pele enruga, o cotidiano é tedioso, não há mais tempo para aventuras e a paixão pelo cônjuge se esvanece. Em Rainha de Copas (Dronnigen, no original), dirigido pela dinamarquesa May el-Toukhy, Anne (Trine Dyrholm), mãe de duas filhas e uma advogada bem sucedida, decide reacender a chama do fogo que apagou dentro de si.

Trine Dyrholm and Gustav Lindh in Dronningen (2019)

Quando seu esposo, Peter (Magnus Krepper), anuncia que Gustav (Gustav Lindh), seu filho de outro casamento, irá morar um tempo com a família, Anne recebe a notícia com insegurança. Afinal, ele era problemático e infrator. Como esperado, o menino começa introspectivo e com atitudes de rebeldia.

Posteriormente, a situação desconfortável chega ao ápice quando Anne descobre que Gustav forjou um assalto na casa da família. Assim, a madrasta dá uma escolha ao jovem: ser mais aberto e interagir mais com ela e suas duas meias-irmãs ou ela contaria para seu pai e a polícia do roubo. Entretanto, inesperadamente, Gustav se aproxima até demais de Anne e os dois desenvolvem um romance escondido. Sim, estou falando de uma relação quase incestuosa.

Trine Dyrholm and Gustav Lindh in Dronningen (2019)

No entanto, este amor proibido é apenas a camada exterior de Rainha de Copas. O filme escandinavo é, em suas raízes, um grande estudo sobre relações de poder em um microcosmo e uma celebração da figura feminina. A sensibilidade como a diretora captura a brilhante Trine Dyrholm diz muito, quer em momentos sutis, quando a coloca repetidamente passando hidratante na mão, quer em sequências mais explícitas, como a protagonista estudando sua nudez diante de um espelho.

A busca de Anne em Gustav vai além de uma satisfação sexual, sendo uma forma de se rejuvenescer e ter o controle das coisas novamente. De fato, isso é perceptível, em contraste, nas cenas (explícitas) de sexo com o marido e o enteado. Em uma ela é dominada, enquanto na outra ela domina. Ademais, todos os diálogos dos amantes possuem como tema recorrente o escapismo e lembranças da juventude. Eles relembram quando foi a primeira vez de cada um e também brincam sobre fazer uma tatuagem.

Ainda que jamais se cruze com a trama principal, a vida profissional de Anne é fundamental para entendermos melhor sua moralidade. A protagonista trabalha como advogada de vítimas frágeis e jovens, geralmente em casos como agressão e estupro. Em uma cena, ela até confronta diretamente um dos acusados de sua cliente. Isso mostra uma grande complexidade na figura de Anne, pois ela possui uma espécie de bússola moral e também parece ter uma fixação por estar com pessoas mais novas.

Trine Dyrholm and Magnus Krepper in Dronningen (2019)

Um dos grandes méritos de Rainha de Copas é a criação de toda essa ambiguidade da relação extraconjugal. É, ao mesmo tempo, repugnante e fascinante, causando um conflito moral na mente de quem assiste. Inegavelmente, o que está acontecendo é errado, mas há, de fato, sequências bonitas entre os dois, como a que brincam no lago, belíssimamente filmada e iluminada. Outro aspecto que chama a atenção é a presença de uma marcante trilha sonora (Jon Ekstrand), trazendo urgência e antecipação de forma crescente para a história, quase transformando o filme em um suspense.

Por fim, nenhuma das conquistas do longa-metragem seria possível sem a poderosa atuação de Trine Dyrholm. Com diversas camadas em sua atuação, a atriz, em uma mesma cena, consegue mostrar força e dominância na sua voz, enquanto seus olhos mostram fragilidade e medo. Diferente de certas atrizes de Hollywood, a dinamarquesa aceita a sua pele e, com o rosto marcado pela idade, encaixa-se perfeitamente dentro de seu papel. O sueco Gustav Lindh permeia perfeitamente entre o orgulho e instabilidade emocional, características conflitantes e normais para um jovem.

Rainha de Copas se mostra uma sensível e intimista obra sobre poder, amadurecimento e sexualidade. Com uma temática moralmente polêmica, o filme incomoda seu espectador, mas também o fascina, seja por seu crescente suspense ou por uma atuação digna de premiação por Trine Dyrholm.

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