Pacarrete | Crítica | #CineCearáFestival

    Por Messias Adriano

    Charlie Chaplin criou uma das mais bonitas cenas da história do cinema no final de Tempos Modernos (1936). Nela, o Vagabundo e seu par romântico caminham por uma estrada após  diversos percalços, quando o personagem de Chaplin lembra que, ora, a vida é mais fácil quando levada com um sorriso no rosto.

    Pacarrete (Marcelia Cartaxo), a protagonista do grande vencedor do Festival de Gramado 2019, parece saber dessa lição. Logo na abertura do longa, a personagem nos é apresentada varrendo uma calçada de uma casa simples enquanto dança e sorri, apesar dos gritos de “pega a doida!“ dos transeuntes. A bailarina idosa do interior do Ceará é obstinada e sonha em fazer uma apresentação de dança na festa de aniversário de 200 anos da cidade onde mora.

    Além de persistente, Pacarrete é uma pessoa que parou no tempo: usa fitas VHS para assistir vídeos de balé e, para ouvir música, opta pelos discos de vinil. Não à toa, ambos os objetos passam por processos de deterioração em pontos da história. Estaria Pacarrete e sua romantização da Belle Époque francesa também se deteriorando?

    Mas ela não liga para os sinais da obsolescência. “O povo não quer saber de balé, o povo quer é festa.“, justifica-se a secretária de cultura em uma das tentativas de dissuadir a protagonista do seu plano de se apresentar. Mas a protagonista é espirituosa e vai continuar trabalhando para que seu número de dança ocorra, seja qual for o custo.

    O tom gracioso e ranzinza da personagem principal é traduzido pelo figurino: as roupas vistosas e bem trabalhadas da bailarina alternam inicialmente entre o vermelho, o rosa e o alaranjado. Quando Pacarrete arruma as malas em uma tentativa de fuga, todas as peças que ela busca levar são desse mesmo tom. Após determinado acontecimento traumatizante, vemos as cores  das peças mudarem para tons mais sóbrios, como o azul escuro e o preto.

    João Miguel in Pacarrete (2019)

    A trilha sonora de Márcio Câmara e Frederico Silveira também merece destaque. Fugindo de tons excessivamente piegas, a dupla apresenta belas composições de piano, cuja doçura potencializa cenas como a da “vitória“ de Pacarrete ao dar um presente ao dono do bar Miguel (João Miguel) e receber dele um beijo.

    Há, no entanto, determinadas escolhas de gosto duvidoso, como algumas piadas escatológicas fora de hora, ou a cena filmada do alto de uma escada enquanto vemos a protagonista ir e vir em desespero, ou mesmo alguns comentários cômicos que se repetem e perdem a graça depois da segunda vez (o nome do cachorro é um exemplo disso). Isso atrapalha a conexão com os personagens.

    Dentre os coadjuvantes, o destaque é a empregada doméstica Maria (Soia Lira). Seja passando roupa, catando feijão, ou tentando animar a protagonista, a personagem transparece uma naturalidade encantadora e digna de elogios.

    Se Pacarrete consegue ou não seu objetivo inicial, pouco importa. A sua perseverança é mais importante de ser absorvida pelo público. Afinal, é sempre bom lembrar que devemos seguir sorrindo e fazendo de qualquer calçada nosso palco.

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