Em Guerra | Crítica

    Por Michel Gutwilen

    Reeditando a dupla que fez com Vincent Lindon (La Haine) em O Valor de um Homem, o diretor Stéphane Brizé lança seu novo filme, Em Guerra. O interessante aqui é que é possível ver este como uma reação àquele. No longa de 2015, o veterano ator vive um recém-desempregado em dificuldades que, após aceitar um emprego de segurança em um mercado, permanece inerte e passivo diante das crueldades que presencia no dia-a-dia. 

    Todavia, Em Guerra é sobre uma greve trabalhista que tem início após uma multinacional anunciar o encerramento de uma de suas filiais na França. Rejeitando uma aproximação impessoal e organicista como Sergei Eisenstein fez em A Greve, o diretor francês deixa claro: há um herói do movimento operário. Este é Laurent, vivido por Lindon.

    Quando começa, há uma visão dos acontecimentos sob a ótica de um telejornal, realçando a aproximação da trama com o realismo. Depois, corta-se para uma reunião formal entre os líderes da greve, comandados pelo enérgico Laurent, e o os acionistas da companhia, filmada por uma câmera livre que se posiciona como uma participante da conversa. Por fim, antes do surgimento dos créditos iniciais, uma direção esquizofrênica alterna entre os trabalhadores marchando e giros em 360º graus (significando a revolução, literalmente)  com um rock futurista ao fundo.

    Vincent Lindon in En guerre (2018)

    Esses dez minutos iniciais já são um bom resumo da estrutura narrativa do filme, funcionando como um jogo de xadrez. Primeiramente, os operários atacam e fazem suas reivindicações. E vice-versa. Sempre com a câmera livre na mão, Brizé consegue transportar o espectador para o clima de tensão dentro das revoltas, que se tornam cada vez mais claustrofóbicas quando a polícia chega com seus escudos e vão, literalmente, empurrando os manifestantes de volta. 

    Assim como os embates físicos, as sequências de reuniões também são marcadas pela tensão. Esse efeito é causado principalmente por um Lindon comprometido ao papel e que é possível sentir sua raiva pela injustiça social nos olhos. Além disso, a maneira como o roteiro de Brizé coloca os mandachuvas da companhia e membros do governo como incompetentes e desinteressados dá raiva, não só no protagonista, como também na audiência, que imediatamente compra sua causa. 

    Outro fator interessante que aumenta o tom realista de Em Guerra é que, com exceção de Lindon, todos os outros atores são amadores. Essa escolha vai perfeitamente de encontro com a estética caótica, principalmente nas reuniões entre os próprios grevistas. Simultaneamente, há gente xingando, gritando e apontando dedos umas nas caras das outras.

    Vincent Lindon in En guerre (2018)

    Nesse sentido, o roteiro também não cai na armadilha de retratar o movimento operário como unidimensional, gastando um devido tempo com suas brigas internas, causadas pelas visões diferentes. Todavia, não é possível dizer o mesmo da representação da burguesia no filme. Entretanto, isso jamais é um problema, uma vez que em guerra é preciso escolher lados. E no caso, claramente é o da classe trabalhadora.

    Por mais que não pareça, Em Guerra é muito mais uma história intimista do que uma revolta em larga escala. É sobre a vida de um herói. Não por coincidência, quando a filha do protagonista envia fotos de sua gravidez, elas possuem uma edição que imita um formato de revista em quadrinhos. E como todo herói, Laurent carrega um peso nas costas que não pediu, o que acaba sendo demais para um simples operário com um simples desejo: ter emprego para sustentar a família. Uma pena que no mundo atual, não há superpoder capaz de acabar com a ganância dos grandes empresários.

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