Chicuarotes | Crítica

    Por Michel Gutwilen

    “Poderia estar roubando, mas estou aqui vendendo minha arte”. Provavelmente quem anda de transporte público (principalmente metrô) no Rio de Janeiro já escutou essa frase. São inúmeros poetas, rimadores, piadistas, saxofonistas, violinistas e outras mentes talentosas que são marginalizadas pelo mercado de trabalho. Bem, agora imagine que um desses artistas, ao se enfurecer com a falta de esmola dos passageiros, decida assaltar o vagão. Sem mais delongas, é assim que Chicuarotes começa.

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    Os assaltantes são os jovens amigos Cagalera (Benny Emmanuel) e Moloteco (Gabriel Carbajal). Logo nos primeiros minutos já fica claro que há uma enorme diferença entre a dupla. O diretor Gael García Bernal (mais conhecido por seu trabalho como ator) divide a dupla em duas cabines sanitárias durante uma cena em que repartem os lucros do roubo. De tal forma, logo se estabelece uma barreira invisível entre os dois.

     

    Enquanto Cagalera é mais extrovertido, confiante, abusado e controlador, Motoleco é calado, inocente, gentil e até submisso ao colega. Assim, o jovem ingênuo é um bom artifício do roteiro para fazer com que o público simpatize com a dupla, ainda que eles cometam crimes. Tão diferentes, eles possuem pelo menos um desejo comum: sair da miséria e melhorar de vida. Moradores do pobre distrito de San Gregorio na Cidade de México, os jovens acreditam que um caminho de delitos e violência pode ser a saída.

    Além das dificuldades financeiras, o ambiente familiar de Cagalera não é nada fácil. Temos seu pai (que não é nem chamado assim, mas pelo nome próprio, mostrando distanciamento), um alcoólatra que agride a esposa. Como se já não fosse problema, suficiente, Cagalera se mostra possessivo e intolerante ao arranjar problemas com a irmã, por estar saindo com rapazes, e com o irmão, por ser homossexual.

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    Chicuarotes passa a maior parte de seus 95 minutos com a câmera acompanhando a dupla pelo bairro pobre ou em conversas durante um sofá abandonado na rua. São nesses momentos em que a fotografia se destaca, conseguindo captar a pobreza material da região, mas valorizando o ambiente natural que os cerca. Além do primor visual, a mixagem de som ajuda no ambiente realista ao acrescentar barulhos de tiros esporádicos e latidos de cachorro como um barulho de fundo para as caminhadas de Cagalera e Motoleco.

    Em um ritmo frenético, a trama jamais para, sempre trazendo alguma enrascada nova para os dois. As decisões impulsivas de Cagalera são o que impulsionam o roteiro, cada vez mais trazendo consequências para seus erros. Ainda que o tom sombrio aumente com o tempo, Bernal se lembra de trazer casuais respiros ao roteiro, com ares de comédia que relembram aos espectadores que seus protagonistas são, no fundo, jovens despreparados e desesperados querendo fugir do destino cruel que eles não escolheram.

    Por mais que Chicuarotes fale muito sobre violência e pobreza, existe também um crescente subtexto sobre força feminina. Inicialmente resumidas a personagens passivas, são elas que, de fato, assumem a responsabilidade e consertam os estragos feitos pelos homens destrutivos da trama.

    De tal forma, a esposa, que apenas apanhava do marido e a menina, que era só paixão do protagonista, se tornam os sujeitos ativos e transformadores da história. Vale destacar que há também uma sequência (sem dar spoilers) envolvendo uma situação de poder em que normalmente homens possuem o controle, mas o filme inverte essa dinâmica.

    Chicuarotes possui um elenco que se parece com pessoas verdadeiras e não astros de cinema, o que ajuda na identificação com a história e seus acontecimentos. Com um terceiro ato repleto de tensão, Bernal mostra ter total controle sobre o ritmo e da montagem de seu filme.

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    Por fim, temos aqui uma visão intimista sobre o cotidiano da miséria e como a juventude ambiciosa, aliada a um fator socioeconômico, pode desencadear em uma sequência de decisões equivocadas. Se inicialmente isso pode até soar maniqueísta (todo jovem pobre vai para o crime?), o roteiro ajuda a identificar os fatores particulares que fizeram Cagalera ir nessa direção e, em seu encerramento, mostra que é possível correr (literalmente) desse caminho.

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