Ad Astra | Crítica

    Por Michel Gutwilen

    Começar falando de Ad Astra sem entender como funciona o cinema de James Gray seria uma oportunidade perdida — até por uma questão de expectativas, que será comentada posteriormente. Com 6 filmes na carreira, os temas sobre família disfuncional e, consequentemente, a busca por aprovação, são muito importantes para o diretor. Só para exemplificar: sejam os irmãos em Fuga para Odessa e Os Donos da Noite ou pai e filho em Z: A Cidade Perdida. Esse último longa, por sinal, juntamente com Amantes, já indica um outro tópico crucial em seu novo longa: a obsessão pelo inalcançável.

    No início de Ad Astra, o astronauta Roy McBride (Brad Pitt) está se recuperando de uma missão fracassada. Antes disso, um letreiro avisava que a narrativa se passa em um futuro próximo: lugar de esperança e conflitos. Sem muitas delongas, o protagonista descobre que seu pai, Clifford McBride (Tommy Lee Jones), desaparecido há anos em uma missão que buscava vida extraterrestre, pode estar vivo. Assim, Roy deve partir em uma jornada para achá-lo. Além do vínculo emocional, a nave perdida de Clifford parece estar emitindo Sobrecarga, uma energia que põe a vida no sistema solar em risco.

    Brad Pitt in Ad Astra (2019)

    Voltando às expectativas, quem espera um filme repleto de elementos de ficção científica irá se decepcionar. Ad Astra, antes de tudo, é uma belíssima e existencialista obra de arte sobre drama familiar. Neste sentido, é injusto — e perda de tempo — cobrar da narrativa uma fidelidade técnica, que volta e meia é abandonada em detrimento de uma liberdade poética. Aliás, se em Z: Cidade Perdida, Gray mostrou a Amazônia de maneira mais intimista, ele faz o oposto desta vez. O espaço faz um interessante contraste com a busca de Roy, amplificando o sentimento de vazio, solidão e pequenez.

    A estrutura narrativa de Ad Astra é simples: Brad Pitt vai pulando de nave em nave e planeta em planeta até chegar ao seu destino. E essa jornada é linda. Assim, cada ambiente visitado é um mundo a parte, seja pelo excelente design de produção, uma mistura de Blade Runner 2049 e 2001: Uma Odisseia no Espaço, ou pelo uso de cores marcantes: o azul triste de Netuno; o amarelo e o vermelho quentes de Marte; o roxo, verde e laranja se alternando nas espaçonaves. Todavia, isso não significa que o filme seja apenas uma viagem contemplativa e de autoconhecimento. Por conta disso, o roteiro de Gray encaixa algumas sequências de ação, trazendo dinamismo e urgência à trama, como a tensa perseguição pirata.

    Tommy Lee Jones in Ad Astra (2019)

    Ainda que mostre sua versatilidade nessas cenas mais enérgicas, James Gray é o mestre da melancolia. De tal forma, muito do efeito dramático do filme passa pela atuação de Pitt, conseguindo capturar a essência de um homem que busca fugir da sombra do pai com nuances introspectivas. Solitário, Roy se expressa sempre por meio de monólogos e voice-overs poéticos, mas que perdem força justamente por serem tão expositivos.

    Já Tommy Lee Jones, no pouco tempo que aparece, consegue estabelecer rapidamente como seu personagem chegou no ponto que encontramos ele — sendo interessante a forma como diretor apresenta o personagem, mostrado de baixo para cima e separado por uma grade. Quanto ao elenco secundário, até que Donald Sutherland e Ruth Negga funcionam como auxiliares do protagonista, mas espanta a escalação de Liv Tyler para um papel tão descartável.

    Ao final de Ad Astra, a catarse vem, tanto para Pitt quanto o público, sendo construída de maneira lenta e gradual. Não é de hoje que o gênero de ficção científica é usado para explorar a natureza humana e, neste sentido, James Gray compreende perfeitamente isso. Não só seu novo filme é um estudo de uma relação paternal intimista, como também traz uma mensagem para toda a humanidade. Buscamos muito o além e o inimaginável, enquanto negligenciamos o presente e a própria existência humana.

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