A Vida Invisível | Crítica | #CineCearáFestival

    Por Messias Adriano

    Há quem franzirá a sobrancelha em tom de desagrado ao perceber que a divulgação de A Vida Invisível abraça de forma frontal a palavra “melodrama”. Existe uma visão preconceituosa quanto ao gênero, o qual normalmente é associado a novelas de trama rasa e que forçam a todo custo o choro do espectador. Conhecendo esse estigma, o diretor cearense Karim Aïnouz subverte as expectativas dos desavisados e faz uma obra repleta de camadas, sejam elas políticas, sociológicas ou dramáticas.

    Julia Stockler and Carol Duarte in A Vida Invisível (2019)

    O filme nos apresenta as irmãs Eurídice (Carol Duarte) e Guilda (Julia Stockler), ambas por volta dos 18 anos de idade, filhas de pais portugueses conservadores e vivendo num Rio de Janeiro da década de 50. Há uma conexão magnética entre as duas personagens logo no início do longa.

    O sentimento fraterno é potencializado pela naturalidade na qual assuntos triviais são ditos (“deu até vontade de fazer cocô.”, Guilda fala antes de um encontro) e também pela habilidade da direção quando, por exemplo, em uma determinada cena de conversa, a câmera permanece parada com as duas personagens fora do quadro, e isso ocorre apenas porque, no momento em que o assunto envereda para o sexo, as duas se aproximam fisicamente e reaparecem por completo na tela.

    Carol Duarte in A Vida Invisível (2019)

    A trama segue, a vida segue e essa proximidade física é rompida, dando início ao drama central das personagens. Os planos das duas tomam rumos diferentes do imaginado e sonhos são interrompidos pelos acontecimentos comuns à sociedade da época (ora, e também da atual).
    A ilusão de viver feliz na Grécia é substituída pela criação de um filho sem pai, o plano de estudar música em Viena é adiado por um casamento com um burocrata que faz sexo com a agressividade de quem aplica um golpe em uma briga. A lente grande angular utilizada na cena da manhã seguinte a da noite de núpcias de Eurídice reflete a estranheza e falta de pertencimento àquele local, àquela vida.

    E para ingenuidade perdida, resta a adaptação à injusta realidade. É curioso, por exemplo, perceber como cada uma das duas usa o sexo como ferramenta de proteção: Guilda “domina” um homem nos fundos de um boteco para que ele goze rápido e ela possa voltar logo pra casa. Anos depois e mesmo sem ter contato com a irmã, Eurídice usa a mesma estratégia no marido para “acalmá-lo”, após dar a notícia de que havia sido aprovada em um teste para estudar música.

    Julia Stockler and Carol Duarte in A Vida Invisível (2019)

    Direção de arte, fotografia e trilha sonora fazem um trabalho competente, vide a cena que nos transporta a um boteco apertado, unida a um de batuque contagiante: é a singularidade instigante das noites boêmias no subúrbio carioca na década de 50. Se não era assim, é exatamente daquela forma que imaginamos aquele Rio de Janeiro. As cores verde e vermelho também exercem um importante papel estético e principalmente narrativo, visto que acompanham as personagens em momentos chaves da história, seja em uma peça de roupa, seja nas plantas dos jardins que compõem diversas cenas.

    Acima de tudo, A Vida Invisível se ancora em uma virtuosa força feminina, que ainda encontra espaço para incluir uma terceira personagem importante, Filomena (Bárbara Santos), a mais calejada das mulheres dessa história: “É menino ou menina? Menino… Sorte a dele.” São as palavras que ela diz quando Guilda volta do hospital após dar a luz. Por mais superficial que a fala possa parecer fora do contexto, é uma das poucas vezes onde o texto do melodrama abraça uma linguagem mais explícita.

    Isso porque a obra de Aïnouz apresenta também um subtexto sociológico mais profundo, uma visão que busca, de certa forma, inverter o colonialismo brasileiro: a família pura lusitana é desfeita e os cacos que restam vão, aos trancos e barrancos, formando laços afetivos sinceros por meio do carinho e cumplicidade entre uma descendente de portugueses e uma brasileira nata, deixando por herança um barraco transformado em lar fraterno, não pelo sangue, e sim pelo resultado da objeção às normas patriarcais impostas às mulheres.

    E é o feminino que a narrativa tem como centro gravitacional. Quem é a Eurídice? O que a Guilda representa? Não são heroínas clássicas, não tiveram casamentos bem-sucedidos, são talentosas, mas sequer iniciaram uma carreira. O amor entre as irmãs e a presença de uma na outra nos leva a imaginar uma realidade diferente: tivessem elas permanecido juntas, a vida provavelmente teria sido melhor.

    No entanto e tristemente, a trama segue como a vida real. E nessa severa realidade, as Eurídices e as Guildas são nossas mães, as Eurídices e as Guildas são nossas avós, no Rio de Janeiro ou em qualquer lugar do mundo: mulheres invisíveis a olho nu, mas que foram grandes, enormes em tudo aquilo que poderiam ter sido.

     

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