Por Gabriela Rosa
Como ser aquilo que não é majoritário e nem está no padrão? Como ser – sem tirar suas potências?
“Surda”, dirigido por Eva Libertad, é um banho de água fria. Com uma sensibilidade acolhedora, Libertad nos afoga em ondas tênues e tensas, sem nos deixar respirar, até o último minuto do filme.
Ángela, uma mulher surda, vive um turbilhão de emoções – medo, angústia, expectativa, alegria – com a chegada de sua filha. O que deveria ser uma felicidade e acalento se torna um temor. A família, composta por Ángela e seu marido – ouvinte -, antes da chegada da bebê, vivia uma vida simples e calma, com muita cumplicidade e respeito para com as limitações auditivas de Ángela. Porém, a dinâmica familiar foi abalada com a descoberta de que a filha era ouvinte.
Além do preconceito, que muito foi retratado no filme pela forma com que as outras mães – e pessoas no geral – tratavam Ángela, criou-se uma distância entre ela e a filha, e uma aproximação da filha com o pai – ouvinte.
Em meio a uma tensão familiar, o choro do bebê foi nos hipnotizando, nos deixando fora de órbita. Um choro carregado, exagerado e aflitivo, que não parava e só causava mais angústia.
A gravidez é um momento delicado na vida da mãe. Muitas expectativas e receios. Será que vou conseguir? Será que serei uma boa mãe? Porém, todos esses pensamentos desaparecem ao ver o rosto do filho. No entanto, para quem não está no padrão, como Ángela, o medo persiste carregado de pré-concepções e da dúvida de como conseguir se relacionar com o filho que está dentro dos padrões.
É inegável o toque generoso que Libertad deu para “Surda”, muito cuidadoso e forte. É de uma grande importância e relevância filmes que discutem temas que são tabus – ou apenas pouco falados. Miriam Garlo (Ángela) nos apresenta uma personagem extremamente empática e calma, construindo a tensão ao longo do filme, que culmina – finaliza – num ato de afeto e colo – trazendo uma sensação de esperança – entre Ángela e a filha.
Defendo a força-potência de “Surda”, uma história contada de forma bela com encadeamento pensado das imagens e informações durante um mergulho no mar gelado e com ondas.
