Por Ana Carolina Ferraz

Steven Soderbergh, conhecido por dirigir Julia Roberts no premiado Erin Brockovich (2000) e pelo sucesso controverso Magic Mike (2012), passou por um período de menor destaque nos últimos anos. Agora, retorna com Presença, um filme que mistura terror, drama familiar e crítica social, abordando temas como luto, abuso de drogas e a normalização da misoginia.

Comecemos, então, com uma pequena contextualização do cinema de terror (um dos meus gêneros favoritos, diga-se de passagem) das últimas décadas e a sua relação com a sociedade. O terror cinematográfico evoluiu ao longo das décadas, refletindo diferentes medos e ansiedades sociais. Siegfried Kracauer (1889–1966), um dos principais teóricos do cinema, defende que o filme pode ser entendido como um reflexo da alma de uma determinada sociedade e a análise profunda dessas produções são capazes de exemplificar as notórias contradições pela qual uma nação passa. Em um de seus livros mais proeminentes, De Caligari a Hitler: Uma História Psicológica do Cinema alemão (1947), Kracauer evidencia que o surgimento do gênero de terror na Alemanha está relacionado com o conturbado período de ascensão do nazisfascismo. Não à toa, alguns dos maiores filmes de terror da história surgem justamente na Alemanha do entreguerras como Nosferatu (1922) e O Gabinete do Dr. Caligari (1920). Assim, o cinema de terror historicamente se aproveita do absurdo para explorar complexidades sociais.

Na década de 1970, o gênero passou a refletir questões sociais como a crise pósVietnã e a desconfiança no governo dos EUA, com clássicos como O Massacre da Serra Elétrica (1974), que criticava a exploração da classe trabalhadora e o impacto da industrialização, através da bizarra e aterrorizante história de uma família que comercializava carne humana. Nos dias atuais, temas como misoginia e racismo têm ganhado destaque, com filmes como O Homem Invisível (2020), A Substância (2024), e as obras de Jordan Peele, como Corra (2017) e Nós (2019), explorando o abuso e a violência racial como reflexo de questões sociais urgentes.

A proposta de Soderbergh em Presença é utilizar uma narrativa já conhecida no gênero terror para nos conectar a uma realidade social atual. O filme apresenta a história de uma casa recém-alugada, mas a trama se desenrola sob a perspectiva da entidade que assombra o local. Esse ponto de vista é interessante e cria uma atmosfera inquietante,
mas, em alguns momentos, a direção parece mais preocupada em exibir um jogo de
câmeras excessivo e exaustivo. A sensação de claustrofobia é bem-criada, mas poderia
ser mais aprofundada, principalmente nas relações entre os membros da família.

A personagem de Lucy Liu, embora seja fundamental para a trama, não tem sua atuação totalmente explorada. Sua performance é eficaz, mas a construção da personagem, fria e distante, parece ser mais um reflexo das escolhas da direção, que opta por focar no jogo de câmeras em detrimento de um desenvolvimento emocional mais profundo. Como mulher de negócios, ela toma as decisões e exerce controle sobre o lar, mas evita qualquer envolvimento emocional. Sua relação de negligência afetiva com a filha é um dos pontos centrais do drama, e embora se orgulhe das conquistas do filho, ela ignora seus comportamentos problemáticos, mesmo sendo alertada constantemente sobre sua postura machista. Já o marido, apresentado como o “elo fraco” da família, revela-se o mais forte ao longo da trama, encontrando sua força justamente na sensibilidade que falta à personagem de Liu. Essa dinâmica entre o “forte” e o “fraco” dentro da estrutura familiar é, a meu ver, uma das metáforas centrais do filme, refletindo as complexas relações de poder e controle, evidenciada nos papéis de gênero dos personagens.

Outro elemento impactante é a misoginia e a violência praticadas pelo amigo do irmão, uma subtrama que reforça a temática do filme e adiciona uma camada de horror psicológico ainda mais realista e desconfortável. A violência não é apenas física, mas também emocional, e essa dualidade traz à tona a ideia de que o horror mais assustador talvez não esteja no sobrenatural, mas nas relações humanas distorcidas pelo abuso de poder. Soderbergh não precisa de cenas violentas, sangrentas, assombrosas ou macabras
para criar a sua atmosfera de terror.

O final do filme parece caminhar para um desfecho previsível, mas Soderbergh surpreende ao subverter as expectativas do público, entregando uma cena que, ao invés de buscar um final convencional de terror, aprofunda a reflexão sobre a dinâmica de poder e os horrores reais da sociedade. Essa subversão traz um elemento de desconforto que ecoa bem além da tela. Presença pode não ser um terror convencional, mas sua abordagem sobre os horrores reais da sociedade o torna uma obra relevante dentro do gênero, uma espécie de reflexão sobre como o medo e o poder se entrelaçam de forma distorcida no contexto atual.

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