Paralelo ao reconhecimento do cinema nacional mundo afora, produções vindas do Nordeste do Brasil chamam a atenção de críticos e diretores de renome já há algum tempo. O cinema dessa região específica teve obras elogiadas por Martin Scorsese, Bong Jon Ho e vem sendo figura constante nos mais importantes festivais do planeta. O que há de tão instigante na produção proveniente de tal local?

Uma particularidade que chama a atenção no cinema nacional como um todo é o fato de que, em outros países, os filmes que ganham notabilidade surgem de polos específicos. Nos Estados Unidos, por exemplo, as produções com visibilidade vêm normalmente de Hollywood ou de Nova Iorque. No Brasil, por mais que haja uma concentração de grandes estúdios no eixo econômico Rio-SP, quando se fala em notoriedade, esse monopólio é quebrado. O barateamento dos custos de produção é apenas um dos aspectos que fez com que tal descentralização se tornasse possível, e ela possui importância fundamental na democratização e abertura de espaço para vozes novas e diversas.

Por estar afastado das amarras dos grandes estúdios, onde a preocupação mais direta com lucros faz com que às vezes haja uma repetição excessiva de fórmulas prontas, o cinema nordestino tem mais liberdade pra arriscar. Essa vantagem é  aproveitada como um fator que potencializa a importância do esmero artístico durante todo o processo de produção uma obra.

Se uma das características do cinema nacional é ser forte e pungente,  tal atributo é ainda mais valorizado nas produções nordestinas. De Glauber Rocha a Kleber Mendonça Filho, passando por Cláudio Assis e Marcelo Gomes, o cinema nordestino bebe com frequência da fonte do cinema político, do cinema crítico, onde, normalmente, o espaço para o escapismo é limitado. Em 1964, dois filmes com essas características, Vidas Secas e Deus E O Diabo Na Terra do Sol, foram selecionados à Palma de Ouro do Festival de Cannes. Tudo bem que, no final, o prêmio máximo ficou com o musical romântico (e ótimo) Os Guarda Chuvas do Amor, mas o ocorrido indica que não é de hoje que o Nordeste chama atenção dos mais importantes festivais do mundo.

Apesar de haver quem já aponte subdivisões temáticas dentro do próprio Nordeste – o Ceará é conhecido por sua pegada experimental (O Estranho Caso de Ezequiel), surge na Paraíba uma vocação ao terror (O Nó do Diabo, A Noite Amarela, ambos selecionados em edições diferentes do Festival de Roterdã) –  não há estereótipos fixos que definam com clareza o que compõe o cinema nordestino. Existe uma grande diversidade, sendo fato que, hoje em dia, a região produz de tudo, independentemente das constantes limitações orçamentárias.

Isso porque, mesmo com um barateamento dos custos, o cinema ainda continua sendo uma arte muito cara em sua produção e distribuição. Uma região essencialmente pobre apresentar filmes de tão grande valor artístico é, no mínimo, curioso. Sem dinheiro, independente dos grandes estúdios, com pouco ou nenhum apoio governamental, o Nordeste ainda consegue fazer obras das mais pungentes. Pedindo licença a Euclides da Cunha, pode-se dizer que o cinema nordestino é, antes de tudo, um forte. O “Hércules-Quasímodo“ do cinema nacional.

E como prova da diversidade temática que possui a sétima arte nordestina, listo aqui cinco obras além das já citadas, todas do mais alto nível, mas que não poderiam ser mais diferentes entre si:

  1. O Som Ao Redor: drama/suspense urbano que consegue ser uma crônica contundente sobre desigualdade, elites e compensação histórica.
  2. Cine Holliúdy: o “Cinema Paradiso” com tempero cearense. Personagens carismáticos e divertidos, num texto leve e engraçado.
  3. Boi Neon: vaqueiro de curral quer começar uma carreira no ramo da moda. Contemplativo e com imagens simbólicas que levam à reflexão.
  4. A Luta do Século: documentário sobre a disputa lendária entre “Luciano Todo Duro” e “Reginaldo Holyfield”, a maior rixa do boxe nacional. Muito além do atrito entre os dois pugilistas, ou entre Bahia x Pernambuco, o filme é uma trágica e tocante ode à resistência nordestina.
  5. O Dragão da Maldade Contra O Santo Guerreiro: uma combinação de estilos (Drama? Ópera? Umbanda?) que tem como palco o sertão nordestino. Cangaceiros, coronéis latifundiários, política e muitas alegorias compõem o clássico do diretor baiano.

 

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