O Nariz ou A Conspiração dos Dissidentes é uma jornada ácida, qualquer que seja o sentido que você queira dar a essa frase. Um manifesto visual de um país inteiro através de sua arte, o longa fragmenta obras do teatro, literatura e cinema para estruturar a história cultural da União Soviética e o governo absurdo de Stalin.

A primeira metade é uma narrativa não d’O Nariz, de Nicolau Gogol, mas sobre O Nariz. É evocado, em caráter ensaístico, a importância cultural e política do conto de Gogol como uma homenagem, seguida da representação animada da ópera de Dmitri Shostakovich.

A animação não é convencional, trazendo um quê artístico para as excentricidades que a recheiam, juntamente das várias referências a símbolos da iconografia popular — desde a própria montagem do filme, um experimento que remete aos grandes teóricos russos como Eisenstein, ao próprio fazendo uma aparição em momento chave, onde é mostrado tendo o insight que geraria a icônica cena da escadaria de O Encouraçado Potemkin (1925). Dentre muitas outras aparições, o longa deixa claro que, se toma um partido, é em defesa da arte russa. E este eu exalto como sua glória.

Chegando a segunda parte, o filme não tem rodeios na crítica a Stalin ao retratá-lo como uma grande criança mimada, que manda e desmanda na nação. Está presente uma provocação quando apresenta a relação do líder soviético com o escritor Mikhail Bulgakov, exibindo-os quase como amantes em uma paixão infantil. Uma manobra ousada usar da homossexualidade para fazer humor com os camaradas do governante de uma nação que não é exatamente o mais tolerante com o tema, usando de eufemismo.

Apesar das estratégias geniais de abordagem, O Nariz ou A Conspiração dos Dissidentes pode ser maçante para a grande massa acostumada com padrões confortáveis de narrativa. Também pode ser difícil, mas não impossível, notar o humor improvável e não tão reconhecível das obras do país — e digo isso como alguém que levou anos para notar que Chekhov, de fato, escrevia comédias.

 

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