Por Ana Carolina Ferraz e Marcos André Farias

O filme é o quarto da aclamada franquia de terror e ficção científica Extermínio. A saga apresenta uma sociedade devastada por uma pandemia, ocasionada por um vírus altamente contagioso criado e liderado por grupos irresponsáveis – ainda que de lados opostos – com suas próprias pautas, transformando os humanos em aberrações violentas. A saga conquistou uma base fiel e seleta de fãs, graças ao seu diferencial competitivo em meio a horda de zumbis que dominou o entretenimento visual – The Walking Dead (2010), Resident Evil (2002), Madrugada dos Mortos (2004) Guerra Mundial Z (2013), Eu Sou a Lenda (2007) e The Last of Us (2023).

O diretor do primeiro longa, Danny Boyle (Quem quer ser um milionário, 2008), consegue fazer com que o espectador se identifique com os personagens, refletindo a ação humana diante do fim da sociedade. Enquanto mordidas e arranhões tendem a ser consequências de um instinto pouco racional da maioria dos zumbis das últimas duas décadas, Extermínio vem desenvolvendo melhor o comportamento desse plano de fundo, pelo menos desde Extermínio 2 (28 Weeks later, 2007), o “segundo ‘esquecível’ filme da franquia”. Em Templo dos Ossos, a saga fundamenta a hierarquia dos infectados (como são chamados os zumbis da franquia), dessa vez explorando os “alfas” (os mais altos dentro desta hierarquia), já anteriormente introduzidos em A Evolução (28 Years Later, 2025), expondo, ainda, uma inédita perspectiva dos próprios infectados sobre o que ocorre no mundo ao seu redor.

Ao não reduzir seus infectados a meros errantes sedentos apenas por carne (humana ou não), ou “cérebro!”, Nia DaCosta (direção) e Alex Garland (Roteiro) explicam o lugar do Dr. Ian Kelson (Ralph Fiennes), que está de volta à franquia, acreditando na redenção das vítimas da contaminação. A partir de uma perspectiva humanizada e messiânica do todo, a produção do filme aloca Kelson para trazer, não só a cura para a peste, mas uma solução menos batida para esse dilema dos filmes de zumbis.

Nia DaCosta (As Marvels, 2023), cria sem perder a essência das características marcantes da saga. Terror e violência extrema se apresentam sem excessos nos primeiros minutos. O filme, caso não tenha visto o anterior, funciona como entretenimento autônomo, sem demonstrar diversão vazia. No entanto, caso tenha visto, funciona como extensão direta do segundo, sem grandes lapsos temporais, o que pode incomodar um pouco, fãs de longa data, já que será a primeira vez que isso acontece, mas ajuda a fechar pontas soltas do último longa, deixadas por Spike (Alfie Williams), Jimmy Crystal (Jack O’Coneell) e seu grupo.

O filme não se perde, apesar das mais de duas décadas de existência e está minimamente preocupado em mostrar que parou no “fim da história” pós-guerra fria. A produção arrebenta em não deixar essa ponta solta, que pode ter consolidado franquia como a única do gênero de zumbis que envelheceu em tempo real, envelheceu bem, e que acertou ao apostar no diferencial competitivo para criar solitariamente sua própria fórmula de pandemia zumbi: os infectados estão preocupados em se organizar e se ajudar para sobreviver (podem, inclusive, morrer de fome), e por isso o mote de sua sobrevivência, mais do que se alimentar, é infectar, da forma que for possível: mordendo, ou vomitando sangue nas vítimas.

Ralph Fiennes tem seu melhor carisma desde Lord Voldemort, e ajuda a sustentar o messianismo da personagem numa alegoria cristã reversa caracterizada pelos simbolismos envolvidos no seu arco. Kelson, segue acreditando em soluções pacíficas, solitárias e resiliente. A personagem soa sincero o suficiente para caracterizar sua “jornada do herói” que acaba atraindo o espectador para uma denúncia ao charlatanismo e um grito de socorro e valorização da ciência, mesmo em tempos de terra arrasada.

Ao envelhecer, o potencial da franquia, que quase foi ofuscado em outra década, se tornou único, e parece ter se tornado capaz de alçar voos ainda maiores, enquanto seus primos da mesma geração e proles, já soam envelhecidos, repetitivos ou ambos. Onde se ouve memento mori, pode se interpretar Tetelestai, e uma franquia que correu risco de perder o embalo da empolgação no último filme, parece, enfim, livre do pecado do medo criativo.