Estou pensando em acabar com tudo, novo título da Netflix sob direção de Charlie Kaufman, é didático na sua intenção de trazer o cinema de perspectiva — e com isso, quero dizer que os significados não são tão importantes quanto a experiência de estar nesta jornada, a qual se inicia com a viagem de carro de um casal monótono. Jake (Jesse Plemons) está levando sua namorada (Jessie Buckley) para conhecer seus pais (David Thewlis e Toni Collette). Desde o início, ela tem um diálogo interno onde flerta com o desejo de acabar com tudo — esse “tudo” podendo ser seu relacionamento de seis semanas com Jake ou, evoluindo em pensamentos obscuros, a própria vida.

Ela, chamada Lucy ou Louise, é a consciência ativa do diálogo. Jake é passivo e receptivo aos comentários filosóficos da namorada que rendem longos solilóquios compartilhados, quase uma demonstração do embate de alguém com o seu subconsciente. Em certo ponto, eles podem ser a mesma pessoa vagando pelos cenários minimalistas que mais se aproximam de um fim do mundo solitário.

O cinema de Kaufman, aos poucos, se desdobra em um surrealismo manipulável como o delírio de Um Cão Andaluz (Luis Buñuel, 1928). O jantar na casa dos pais de Jake é uma jornada por um pesadelo, mas ainda não sabemos de quem. As histórias não batem, inconstâncias vêm à tona, ditos são desditos e levados adiante. A narrativa é tão confiável quanto a própria memória. Uma vez aceito o onirismo, fica difícil apontar falhas em algo propositalmente inconstante.

O filme é forte no apelo ao sensorial, é impossível não sentir a ansiedade de se estar preso em um ambiente hostil. Não existem erros na escolha do elenco, composto apenas pela elite do cinema americano e europeu, que não falha em transmitir a estranheza dos personagens. O filme peca em apostar em cenas longas e com poucas nuances durante a viagem de ida e volta na estrada. É possível fechar os olhos e só ouvir o discurso acadêmico entre Jake e a namorada sobre mães e filhos, misoginia e filosofia.

Não desapontando, o filme cresce no presságio do perigo de personagens que se tornam cada vez mais humanos enquanto entendem suas condições de estar sozinhos e serem, aos poucos, esquecidos. Se aconchegando na trajetória de uma vida com suas particularidades, “Estou pensando em acabar com tudo” é uma pura obra de arte, uma experiência compartilhada sobre o ciclo eterno de viver, morrer e se lembrar.

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