Por Gabriela Rosa
Filme assistido no Festival do Rio 2024
A primeira imagem que vemos de um filme nos toca de alguma forma. O sentimento sonoro, visual e afetivo. Um filme pode explicado por uma sensação, por uma palavra e até por uma memória. Em Centro Ilusão do diretor Pedro Diógenes fui invadida pela sensação de acolhimento, pela palavra sutileza e pela memória do inicio de tudo. Diógenes sempre atento e cuidadoso com o afeto e as semelhanças entre os personagens, neste filme nos apresenta uma nova forma de se fazer relações e se manter sensível.
Kaio (Brunu Kunk) e Tuca (Fernando Catatau) se conhecem num laboratório de música. Kaio, um jovem rapaz iniciante na música, já conhecia o trabalho de Tuca, músico consolidado, e vai trocar uma palavra com ele. Embebidos em conversas musicais, familiares e amorosas, os dois se acompanham um dia todo, enquanto esperam a resposta do laboratório.
Tuca é um homem solitário e com pouco dinheiro, vive pela música, com uma voz belíssima e um violão como companheiro. Talvez até fosse seu único companheiro antes de conhecer Kaio. Ele é um jovem rapaz que conta com apoio da sua avó para seguir a carreira de músico. Todos nós artistas sabemos como este caminho é ardiloso e, muitas vezes, cheio de obstáculos, tanto para os iniciantes como para os veteranos.
Por meio de diálogos simples que fluem com naturalidade, sem até parecerem escritos, e imagens que dialogam com o espectador – com cores fortes, como é do estilo de Diógenes – a história vai sendo contada e a relação de Kaio e Tuca se espessa mais, com sutileza e leveza e uma simplicidade do afeto e da diferença de idade – que não é sentida de modo algum -.
Mariana Nunes Gomes, montadora do filme, brinca de forma excelente com as imagens registradas. Percebe-se uma construção de imagens sobrepostas umas as outras e com técnicas de montagem que dão ao espectador uma noção de progressão temporal e afetiva.
Há ainda um aspecto de Centro Ilusão que é a música. Os dois personagens são envolvidos pela música e vivem – ou querem viver – disso e para isso. O canto e os sons do violão retratam uma viagem sistémica e de sintonia.
Pode se afirmar a excelência da direção e do roteiro de Diógenes, sempre enaltecendo o Ceará e suas tradições. Centro Ilusão nos absorve e nos domina do início ao fim. Somos movimentados e, para os que são do Cinema, penetramos num mundo sem volta. No mundo da relação. No mundo da Arte. E mais, no mundo da Poesia, onde há a possibilidade e a vontade de se fazer Cinema neste país.
Confira os textos sobre filmes do Festival do Rio 2024: AQUI
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