“Out of college, money spent / See no future, pay no rent / All the money’s gone, nowhere to go”. A tradução brasileira do último filme de Wei Shujun optou pela associação à seminal música de Caetano, mas essa letra de Paul McCartney também cairia como uma luva no longa. Seja no Brasil, na Inglaterra ou na China, as agonias do ingresso na vida adulta se fazem presentes.

Caminhando contra o Vento acompanha Kun, jovem que está em vias de finalizar sua faculdade de cinema, mas se sente tão ou mais perdido do que quando começou. Seu relacionamento com a família é problemático e seu namoro está em frangalhos. No entanto, nesse ínterim, ele compra um velho jipe que – apesar de seu péssimo estado – o proporciona uma sensação de liberdade em meio ao caos de sua vida pessoal e profissional.

Essa aquisição estabelece, no filme, uma relação simbiótica entre o veículo e o protagonista. O longa se trata não apenas daquele momento pelo qual passa Kun – alter ego do diretor –, mas também de seu vínculo com aquele carro e como este se metaforiza em uma representação de sua vida. Não à toa o longa se inicia e se encerra com esta relação.

Apesar de saber dirigir, Kun não possui habilitação e, quando a obtém, logo a perde. Da mesma forma, a despeito de ser um competente técnico de som, ninguém reconhece seu valor ou prestigia seu trabalho. Ele se encontra estagnado, da mesma forma que o jipe – desenvolvido para ser um off-road – empaca repentinamente em uma pista expressa. É curioso notar como poucas vezes o filme apresenta Kun em seu ambiente doméstico, mas exibe uma profusão de cenas dentro do veículo ou com este em cena. O protagonista sempre aparenta estar indo a algum lugar sem, contanto, chegar a lugar algum.

Em sua batalha contra a morosidade, Kun conta com a ajuda de seu melhor amigo, Tong, que visivelmente partilha de seu apreço pela inconsequência. Este oferece ao protagonista um berço de compreensão e companheirismo em meio ao mar de indiferença – que em parte considerável é alimentada por ele próprio. O filme contrói habilmente a bela relação de cumplicidade entre estes dois jovens alienados do mundo e que encontram, um no outro, o impulso de perseverar.

O que é ecoado na história de Kun – e por extensão, na do próprio diretor – é a ciclicidade da vida. Mais especificamente: a necessidade do encerramento de uma etapa para que a próxima tenha início. Longe de ser pessimista ou derrotista, Wei Shujun exalta o ato de se perder “sem lenço, sem documento”, pois para ele esta é a única forma de se encontrar. Ou, em outras palavras, as de Paul McCartney mais adiante naquela mesma canção: “Oh, that magic feeling / Nowhere to go”.

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O TERROR SEMPRE FOI IGUAL?