O fardo da ausência paterna pode ser especialmente grande para um filho, sobretudo na pré-adolescência. Em somando-se a isso a impetuosa crença da responsabilidade na morte do pai, temos Amra (Bat-Ireedui Batmunkh) – um jovem do interior da Mongólia que, voltando da escola, se envolve em um acidente de carro com seu pai, que perde a vida. Este é um ponto de inflexão na vida do jovem, que se crê obrigado a calçar as botas paternas na briga contra as mineiradoras que visam expandir a todo custo a exploração naquela região.

Aqui já se encontram os pontos altos e baixos de As Veias do mundo, longa da diretora mongol Byambasuren Davaa. No primeiro ato, o filme é competente ao estabelecer as dinâmicas local – a ver: uma terra de povos pastoreiros nômades que ambicionam manter sua tradição ante a ameaça de grandes e gananciosas corporações internacionais – e familiar – aqui, um núcleo de pai, mãe e um casal de filhos, que parece funcionar com extrema harmonia. O patriarca é amado e respeitado por todos na região e sua morte é deveras sentida.

Como pode parecer – e de fato é – a figura do pai de Amra é desnecessariamente idealizada, deixando o garoto em uma irreal missão de suprir a falta deste ser quase impecável. Apesar disso, Amra persiste em seu tour de force, desistindo inclusive de seu sonho de cantar no programa de televisão Mongolia’s Got Talent, para o qual foi aprovado. Entretanto, se o filme se perde ligeiramente ao representar esse irreal núcleo familiar, ele é consideravelmente mais consistente ao apresentar denúncias sociais.

No segundo ato, Amra  decide – escondido da mãe – abondanar a escola e ingressar em uma intentona de mineiração clandestina que é liderada por um antigo amigo de seu falecido pai. Aqui, o filme encontra seu maior potencial narrativo e político. Um possível elemento que esclarece esse fato seria a experiência prévia da diretora na realização de documentários – entre eles Camelos Também Choram, de 2003.

As expedições de Amra nas veias do mundo atrás de ouro causam agonia não só pela natural afeição do espectador com o protagonista da história, mas também pela efetiva forma como é filmada – tratando com uma desconfortável naturalidade aquela situação. A boa atuação de Batmunkh contribui substancialmente para isso e o adolescente quase consegue carregar o longa nas costas.

Por esse motivo, é uma pena que o filme opte em seu roteiro por soluções fáceis que desperdicem seu potencial, assim como o potencial narrativo. Com elas, a denúncia que encoraja o filme – como destaca um letreiro ao final, a exploração mineiradora na Mongólia ocupa uma parcela substancial das terras do país – perde considerável força.

Além do segundo alto, os pontos fortes ficam a cargo da fotografia – as planícies mongóis são belamente filmadas – e a apresentação espontânea da cultura local ao público estrangeiro. Desta forma, ao público brasileiro sobra a curiosidade de observar cenas de um país cujas notícias não repercutem aqui.

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O TERROR SEMPRE FOI IGUAL?