Por Pedro Amaro

Assistido no festival do Rio de 2026.

A dupla Pedro Belchior e Jhenifer Emerick retorna para o primeiro longa-metragem reunida. Se em “Cartas a uma Jovem Mulher” (2024) os dois discutiam o percurso de uma personagem que deseja “se curar”, em A Última Noite também há uma espécie de busca por recuperação. A obra é sobre duas amigas (Elle e Mima) que passam uma derradeira noite juntas no Rio de Janeiro, determinadas a terminar a canção que estão escrevendo antes que seus caminhos as levem em direções diferentes.

Essa tal busca por uma cura é entendida como um vínculo que está fragilizado devido a marcas deixadas pela família e pelos sonhos. Elle é uma mulher que não aceita o convívio com a mãe. Não sabemos de forma específica o que aconteceu (e isso nem importa), mas entendemos o quanto isso dói. Enquanto isso, Mima carrega a dor de um caminho artístico que ainda não se concretizou — o que nos leva a acreditar que a música é algo tóxico para a jovem. Se em um momento ela demonstra vontade de voltar para o apartamento e trabalhar na composição, no outro recusa-se a abraçar o próprio talento (“Eu não vou cantar. Eu tenho um pacto”).

E esta é a força do longa: criar figuras tão fascinantes que ficamos instigados a saber mais sobre seus medos e anseios. Mima (Jhenifer Emerick) é um pouco mais centrada que a companheira. Parece ser mais segura, autêntica e profissional, o que faz com que a cena de briga entre as duas se torne ainda mais impactante. Por sua vez, Elle (Polliana Aleixo, uma GRANDE surpresa do filme) é um furacão ambulante que leva a amiga a reflexões mais intensas.

Tudo isso se desenrola dentro do melhor cenário possível: a Lapa. O local é reconhecidamente um ambiente onde arte, sexo, amor, bebida e todo tipo de diversão são proporcionados ao público. Toda a escolha das imagens é pensada dessa forma. Os diretores (Belchior e Emerick) registram um bairro inteiramente noturno de forma otimista, segura e agradável: há um grupo de meia-idade que se encontra para um ensaio musical, há artistas tentando sobreviver e pessoas se divertindo nos bares. Toda essa seleção de imagens transforma a Lapa em um personagem vivo durante a projeção, criando uma atmosfera marcante de contraste.

Se por um lado a Lapa surge acolhedora, a convivência das protagonistas não é. A fotografia reforça esse clima ao optar por uma câmera majoritariamente na mão, com o intuito de causar instabilidade na dinâmica entre as duas artistas. O resultado é um filme sobre uma amizade melancólica que flerta em levar as personagens ao declínio (por muito pouco elas não abraçam esse destino).

Sendo assim, A Última Noite explora uma ligação complexa de forma tão intensa que nos faz gostar e querer ver mais de duas figuras tão diferentes e, ao mesmo tempo, tão iguais. Há uma cena no início do longa filmada de maneira tão simples que se torna uma das mais belas que assisti no cinema brasileiro em 2026. Mima e Elle estão cantando em um karaokê e a câmera fica o tempo todo estática, apenas observando as jovens cantarem e falarem sobre sua convivência. É como se fosse o próprio olhar do espectador, que no fim das contas só deseja isto: saber mais sobre essas mulheres.