Por Gabriela Rosa
O filme A Substância de Coralie Fargeat reflete uma realidade doentia. Até onde a busca incessante e a corrida pela falsa beleza, pela beleza de mercado e pelo jovial nos levará? De que modo um comentário pode impactar tanto uma pessoa?
Elisabeth Sparkles era uma mulher bem-sucedida, amada e famosa.
Elisabeth Sparkles passa a ser esquecida. Ninguém a lembra mais. Ninguém a cultua mais.
O que fez tudo mudar tão radicalmente? É verdadeiro dizer que, cada vez mais, às mulheres são impostos padrões de beleza e que a sociedade contemporânea está se tornando cada vez mais etarista. A mulher tem que ser bonita, magra e jovem. A mulher tem que ser atraente, sedutora e sensual. A mulher tem que ser tudo, menos o que ela quer e mais o que a sociedade espera dela. As mulheres estão adoecendo. E Elisabeth Sparkles também.
Elisabeth Sparkles é uma apresentadora de um programa de dança na televisão. Seu superior, um homem arrogante e pretencioso, passa a achar que Sparkles está velha e perdeu seu charme sensual, sendo, então, demitida. Devastada com a notícia, e após descobrir, por um médico, o segredo para se manter sempre jovem e bonita, a personagem cai na armadilha do remédio milagroso chamado A Substância. A partir da injeção do medicamento milagroso, a vida de Elisabeth muda completamente, passando a ser necessário dividir a sua própria vida com outra pessoa.
O filme A Substância cumpre com maestria seu papel: ser um puro filme de entretenimento, com sua velocidade rápida, sua fotografia com cores fortes e vibrantes, a amplitude cênica e a sua câmera que parece quase “engolir” o quadro: tudo isto a faz um filme estético e conceitualmente harmônico. Benjamin Kracun faz um belo trabalho de direção de fotografia, que nos remete a filmes de terror antigos, como O Iluminado, com seus papéis de paredes vermelhos e sangue que jorram nas paredes de forma bruta e pulsante.
Outro aspecto de notável apontamento é o mistério que a câmera tem e que passa para o espectador. Sempre filmando detalhes certeiros, trazendo closes e planos amplos de formas enigmáticas e buscando uma certa suspensão de ar.
Carolie Fargeat nos propõe um filme altamente comunicador e que debate assuntos atuais, como a imposição de padrões de beleza às mulheres e sua necessidade de recorrer a eles como forma única de se manter lembrada no mundo. Tendo isto em vista, assinalo que a busca por esta aparência “ideal” pode se tornar incessante e causar efeitos radicais nas vidas das mulheres, como vemos no novo filme de Fargeat.
É necessário sempre pensarmos e nos indagarmos o porquê e pelo que queremos ser lembradas pela sociedade e qual é o custo que estamos decididas a enfrentar para tal. Até que ponto botaremos nossas vidas em risco por um afeto superficial, por uma lembrança magoada ou por um reconhecimento errôneo. Temos sempre que nos entender como realidades transmissíveis de perdão, de aceitação e de amor.
De realidades que não se deixam levar pela fala alheia, pelos olhares alheios. Somos mulheres reais. Perdemos a juventude e sensualidade, mas não a beleza essencial, essa que escapa aos padrões do mercado. Assim como na vida a arte também deve, para além do mercado, encontrar sua verdade – nunca devemos abdicar de nossos corpos vivos.
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