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Little Joe | Crítica | #FestivaldoRio2019

Por Gabriela Ramos

Não é à toa que Emily Beecham foi a grande vencedora do prêmio de Melhor Atriz na competição principal do Festival de Cannes 2019 pelo seu papel em “Little Joe”. Numa atuação complexa, cuja potência está nas nuances, ela interpreta a protagonista Alice, uma cientista e mãe, que está às voltas com seu grande projeto – bem-sucedido, até certo ponto – de criar uma planta modificada geneticamente para gerar vínculo e suscitar prazer.

O temor inicia quando o efeito dessa planta se mostra dúbio e, eventualmente, se mistura ao conflito interno e angustiado que é o manejo do tempo que a protagonista precisa ter para dar atenção e amor à profissão e também ao filho. O primeiro filme de língua inglesa da diretora austríaca Jessica Hausner é, em certo grau, assustador por ser tão real.

Little Joe (2019)

Uma das particularidades da filmografia de Hausner é a busca da sugestão de sentidos pela imagem e pela mise-en-scène. Os diálogos não têm tanta relevância narrativa. Em uma cena inicial, um personagem diz ao filho da protagonista: “que tênis legais”, e no plano seguinte não vemos o tênis, mas sim o rosto do menino. Está implícita aí uma das marcas da diretora: a materialidade das coisas e a objetividade do que se diz não importam, sua busca é filmar o que está além das aparências, o “infilmável”, expresso talvez por um detalhe na expressão do rosto ou do tom de voz, pelo enquadramento do “nada” ou por outros elementos misteriosos da imagem e do som.

Mais do que inserir um subtexto, ela tenta filmá-lo. “[…] a imagem tem a habilidade – pelo seu apelo visual, atmosfera e o quadro em si – de dispor algo que evade à interpretação e à definição, enquanto que na linguagem, você dá nome às coisas e, ao nomeá-las, você começa a interpretá-las e categorizá-las. Para mim, é interessante voltar a um estado pré-linguístico e olhar para uma situação sem a necessidade de dar nome, de já atribuir sentido a ela”, diz a diretora em entrevista.

 

Existe uma indefinição própria do filme que pode ser causa de angústia para alguns espectadores. É curioso acompanhar a tentativa de filmar um não-lugar, que nada mais é do que o não-nomeado. Algo vago, rico de inspiração existencial e que se alimenta da sua própria elaboração, mesclando a isso questões da contemporaneidade, como a relação mulher/maternidade e a “indústria do bem-estar” atual, gerando solo fértil para toda sorte de interpretações.

Existe uma crítica evidente à felicidade como mercadoria e como método de controle, desde o plano inicial da fabricação das plantas organizadas em uma disposição industrial e registrada pelas lentes de uma câmera de vigilância, até quando uma canção repete as palavras happiness business (negócio da felicidade), nos créditos da película. Mas será que a planta representa apenas a indústria farmacêutica ou também a maconha? Será que seus efeitos, quando em excesso, seriam mais positivos ou negativos? Ou um pouco dos dois? A cores roxa e vermelha, que são análogas, estão compostas sempre em oposição, o que evoca essa ambiguidade.

 

A presença musical também é poderosa e inclui uma diversidade de sons, em termos de origem – ora ouvimos ritmos de tambores, ora o que parecem ser instrumentos indianos – o que remete ao caráter universal da maternidade, tema caro para filme.

E é a incessante repetição desses sons que ecoam o que há de mais reprimido em Alice: a agonia sentida por uma mãe culpada e dividida. Assim, é nítido que, mesmo sem saber ao certo o tempo presente do filme, ele expressa imagética e metaforicamente uma perspectiva feminina da existência na contemporaneidade e os aromas de estranhamento que esse período exala.

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