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Years and Years | 1ª Temporada | Crítica

A série ficcional Years and Years (2019, BBC, HBO) tem como premissa apresentar a próxima década do nosso mundo a partir do cenário político, econômico e tecnológico atual e seus muito prováveis desdobramentos. A série delimita um novo mundo assustadoramente próximo do nosso, fundamentado especialmente sobre a percepção frenética, vertiginosa e ansiosa sobre a qual nossa própria realidade se estrutura atualmente.

Jessica Hynes in Years and Years (2019)

Acompanhamos os infortúnios da família Lyons, britânicos de classe média que, apesar da vertigem que toma o mundo de assalto, tentam seguir com suas vidas, um dia depois do outro, apoiando-se sobretudo no conforto do apoio familiar. A narrativa recorre a elipses temporais que dão conta da diversidade de novidades e problemas que o mundo passa a enfrentar no anos vindouros.

Nesse pano de fundo, temos a ascensão política de Vivienne Rook (Emma Thompson, em excelente atuação), política de extrema direita que representa com precisão as estratégias e discursos da nova onda populista, incendiados especialmente pela perda de confiança nas noções de verdade que a acelerada circulação informacional passa a implicar.

A série não se esquiva de nenhum tema, apresentando e debatendo francamente, através do amadurecimento da família, crises políticas, conflitos entre nações, noções de gênero e humanidade, a precarização das relações de trabalho, crises migratórias e habitacionais, a deterioração do meio ambiente e, especialmente, a incapacidade e sentimento de impotência que contamina a quem quer que tente compreender um mundo em crise permanente e irrestrita.

Russell Tovey and Sharon Duncan-Brewster in Years and Years (2019)

O roteiro é bastante transparente na disposição do seu discurso e posicionamento político e não tem medo de usar seus personagens de maneira instrumental para criar uma relação de empatia e cumplicidade direta com o espectador. Não é raro que, em momentos de intensa reflexão, um personagem expresse sua consternação com o mundo com tal clareza e intensidade que a quarta parede quase chegue a se quebrar.

Tendo como propósito abraçar essa sensação de descontrole, o início da série deixa um pouco de lado a progressão dramática e o desenvolvimento de seus personagens. Todos se veem submetidos às forças externas e cada um tem para si sua questão para chamar de sua. Chega a soar estranho que cada drama ressoe muito pouco para além da subjetividade de cada personagem, restando pouco tempo para que eles aflorem de fato e sejam sentidos e comungados coletivamente.

Com o avanço dos episódios e dos anos, no entanto, o rigor com a futurologia da série é flexibilizado e o desenvolvimento da família passa finalmente ao plano frontal da ação dramática, sendo costurada intrinsecamente ao desenrolar dos acontecimentos.

Apesar das escolhas apressadas do roteiro em relação ao realismo ao qual a série adere tão bem de início, essa mudança narrativa é bastante positiva e a série consegue delimitar, com esse movimento, um posicionamento otimista. No fim das contas, e apesar de seu destino trágico, a série confia na capacidade do ser humano de encontrar, nas relações com seus pares, a reinvenção de sua própria humanidade; um modo possível de seguir em frente.

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