Soundtrack | A Imensidão Branca | Crítica

Por Julie Nunes

Drama – 2017
Direção: Bernardo Dutra e Manitou Felipe
Roteiro: Bernardo Dutra e Manitou Felipe
Com: Selton Mello, Ralph Ineson e Seu Jorge

Buscar responder indagações que atravessam a razão existencial parece ser uma tarefa que, de modos distintos, se coloca pungente tanto para a ciência quanto para as artes.

Contudo, reside nessa procura um abismo latente que transcende toda e qualquer diferença de método e nessa lacuna compartilhamos do mesmo transtorno perante a sua imutabilidade e real desafio, uma vez de frente com essa condição, se tornar ainda mais difícil sermos capazes de comunicação para entender e expor tantas percepções que nos atingem.

O longa conta a história do fotografo Cris (Selton Mello) que vai para uma estação na Antártida para desenvolver sua futura exposição que consiste em selfies do mesmo completamente isolado ouvindo músicas, que durante a exposição estariam disponíveis para o público ouvir e assim se aproximar de sua experiência, cada uma com um intuito atmosférico distinto.

Ao chegar ao seu destino na estação Cris conhece os cientistas Mark ( Ralph Ineson), Cao ( Seu Jorge), Huang (Thomas Chaanhing) e o médico Rafnar (Lukas Loughran) e principalmente da parte de Mark e Huang é tratado com hostilidade e distância, essas que lentamente se mostram reflexo do próprio desconforto de seus personagens.

O filme dirigido pela dupla 300 ml tenciona a arte como forte e impressionante instrumento para atingirmos percepções em comum, um método que carrega em seu empirismo uma ciência, e seu protagonista nesse aspecto seria tão cientista quanto seus outros companheiros.

A validade do trabalho de Cris é constantemente questionada, mas o que o filme propõe é que na verdade todos ali se questionam em algum nível, principalmente se submeterem a um trabalho que os isolam de praticamente tudo que amam, mas ainda sim persistem e acreditam que o que fazem é necessário e importante.

Para desenvolver seus pontos o longa faz uso de algumas ferramentas com fundo simbólico como a cegueira, todos aqueles personagens se encontram imersos em uma paisagem que suscita o inócuo – tão denso que se torna capaz de cegar para as próprias percepções- um que por sua vez é impossível de preencher portanto tentamos contornar, mas sua potência – o frio extremo, a comida pouco elaborada, falta de atividades- e isso é sutilmente colocado de fato na narrativa por meio do fato mencionado que a mãe de Cris nunca teria visto seus trabalhos por ela ser cega e assim entendemos a razão pela qual o personagem tenta realizar algumas ações como se fosse também, uma singela tentativa de “ver” e sentir o mundo da mesma forma que sua mãe.

A experiência e seus resultados são para o filme o grau máximo para a compreensão da complexa relação humana consigo mesmo e sua consequência direta no coletivo e em saber expor essas tensões em nuances o filme, de fato, consegue acertar. Porém, ao tanger a relevância artística um superlativo de linguagem é inserido criando uma entidade superior quase mística capaz de conter e realizar grandes feitos para decifrar a humanidade e suas facetas.

A arte e a ciência possuem pé de igualdade nesse território, isso é inegável, mas ao levar isso para tela seus realizadores tropeçam em um perigo eminente : a metalinguagem. O problema aqui está no o quão o filme acredita em si e em estar tocando as pessoas as colocando tal como o público da exposição que o protagonista pretende realizar, o público na experiência mesma de estar de frente com algo que transcende o seu presente, um elemento modificador.

Mas seria essa credulidade tão grave? Não, caso a mesma não se pautasse em saídas fáceis e referências carregadas de uma dose de pretensão como no áudio direto da fala de Hitchcock sobre a felicidade. Cercando-se de ações para que o espectador tenha uma boa consciência sobre os fatos e sua própria vida o longa se dispõem confortavelmente em uma ternura transcendente que facilmente agradará os mais românticos.

Tecnicamente impecável “Soundtrack” não teve nenhuma cena in loco, sendo integralmente filmado em estúdio, é impressionante a qualidade alcançada. Porém, ao que parece o cinema nacional precisa estar capturado por uma estética, estilo e voz extremamente americana pasteurizada  para ganhar votos de confiança e elogios.

A imensidão branca devora os personagens e aqueles que conseguem se identificar com os seus vazios, que de tão engessados, são quase singelos e domesticáveis. Ao final da narrativa, dado um fato determinante para aqueles personagens, há na aceitação – no amor fati- um grande consolo e pseudo encontro com a verdade maior sobre nós. E sobre a arte. A insustentável apatia do ser.

Poster Oficial

 

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