Perdidos em Paris | Uma Criativa Rota de Fuga | Crítica

Por Julie Nunes


1h 23min – Comédia – 2017
Direção: Dominique Abel e Fiona Gordon
Writers: Dominique Abel e Fiona Gordon
Com: Fiona Gordon, Dominique Abel, Emmanuelle Riva

É inegável que o cinema francês possui uma gama abrangente de estilos, e que muitos deles continuam reverberando enquanto influências em muitos cineastas que revisitam a tradição. Cineastas como Jacques Tati, realizador dos filmes Meu Tio e Playtime, Chaplin (Tempos Modernos e O Grande Ditador), e também o ator Buster Keaton são expoentes dentro de um estilo que valoriza o físico para fins de dramatização.

Bebendo dessas fontes encontra-se o cinema realizado por Fiona Gordon e Dominique Abel. Parceiros de longa data, desenvolvem em seus trabalhos uma encenação dedicada ao movimento, tal qual os citados anteriormente, e a imagem aí se vale de pouquíssimos diálogos.

Essa vertente não apenas entrega as referências cinematográficas da dupla, mas também  a origem circense de ambos, sempre  presentes como personagens em suas obras onde a aproximação com os já supracitados é inegável.

Abel e Gordon apresentam um universo aparentemente singelo e agradável ao olhar, que encontra conforto em suas paletas vibrantes, sendo esta uma ferramenta criadora de um tom burlesco responsável pela manutenção do intuito cômico presente, contudo – tematicamente – os contornos abordados vão bastante além de uma simples comédia.

Em Rumba, a dupla lança mão de uma forte tragédia para expor uma leveza corriqueira nos mais inesperados instantes, criando uma inteligente crítica ao comodismo existente e resistente para a leitura de todos os eventos com caráter trágico, uma visão viciada que de certa maneira encontra conforto em uma exacerbação da dor.

Na mais recente obra, Perdidos em Paris, é notória a evolução para criação de análises sociais mais diversas através de personagens esquizos.

Fiona, interpretada pela própria Gordon como de costume, é uma canadense desajeitada que por acaso recebe uma carta vinda de Paris, que tinha tudo para não chegar às suas mãos, de sua tia Martha (Emmanuelle Riva) pedindo ajuda por temer ser colocada em um asilo.

Fiona prontamente sai dos confins gelados onde reside rumo à França; contudo, ao chegar ao endereço da tia, não só não a encontra como é interpelada por uma série de desventuras, e numa delas conhece o morador de rua Dom, interpretado por Abel.

Esses três personagens-chave são responsáveis por colocar em cheque todo lugar comum da interpretação fácil e rasa sobre seus respectivos tipos. Seus personagens, ao se deparar com o infortúnio, tendem a atravessar a situação de maneira que foge ao lugar comum, uma cela à qual eles não pertencem e simplesmente vazam.


Há um nível de romantismo que paira na aura doce que a obra carrega, mas isso é transformado e trabalhado até mesmo colocando o romantismo à prova, pois mesmo em uma locação como Paris, pouco se vê seus cartões postais, e quando estes estão em cena definitivamente não recebem o tratamento cânone costumeiro.

As relações exploradas não se engessam, seja qual for sua natureza, e uma fluidez gerada para dar sentido ao ato de se perder é muito mais simbólica e preenchido de significado do que uma circunstância literal. Não são vistas apenas as entidades sociais mas suas condições, o que permite a fuga. O ser não se encontra preso nos pequenos esquemas e nas soluções fechadas, transcendendo e subvertendo ideias.

Essa estrutura não poderia cair em lugar melhor do que no estilo de seus realizadores, pois há um véu carregado de inocência e despretensão que na realidade diz muito sobre a forma enrijecida e permeada por cobranças que nem sempre sequer fazem sentido, na qual vivemos sem questionar.

Em uma de suas últimas interpretações e em um papel pouco comum em sua carreira, Emmanuele Riva brilha e aventa, ainda, a questão da ruptura com uma zona confortável, se entregando à uma personagem que traz consigo a difícil combinação entre as facilidades de se afastar do padrão e também as dificuldades. Abel, Gordon e Riva encaram o peso das cenas da mesma forma que o filme percorre as incertezas, das ruas e dos conflitos, com a leveza necessária.

Poster Oficial

 

Inscreva-se no Canal e Curta a Fan Page
YoutubeCanal Claquete
Facebook/canalclaquete

 

Você Também Vai Gostar