Pendular | Placas Tectônicas | Crítica

Por Julie Nunes

 

1h 48min – Drama – 2017
Direção: Julia Murat
Roteiro: Julia Murat, Matias Mariani
Com: Raquel Karro, Rodrigo Bolzan e Valeria Barretta

 

O cinema de Julia Murat parece voltar sua atenção para as noções de espaço, territorialidade e suas expressões. Uma travessia que tem como objetivo mostrar uma transformação.

A cineasta, tal como eu seu longa de estreia Histórias que só existem quando lembradas, dedica a seus planos um desenho significativo, forte e em evidência da cartografia que propõem realizar, uma minuciosa investigação sobre o que atravessa e como atravessa seus personagens. Quadros dentro de quadros, alinhamentos e traços. Suas lentidões e acelerações.

Seu mais novo longa, Pendular , trata do relacionamento entre uma bailarina (Raquel Karro) e um escultor (Rodrigo Bolzan) que dividem o galpão- onde vivem e trabalham- com uma linha para definir os espaços de cada um.

Passado praticamente por completo no galpão o filme explora as trocas e tensões desse compartilhamento físico, seja do espaço de trabalho ou da vida conjugal, expondo uma indeterminação que não é gratuita, pois nela está um dos principais estudos que o filme realiza.

Logo em sua cena de abertura vemos o casal traçar a linha que separa seus espaços para que em seguida, em uma descontraída brincadeira com uma bola improvisada que jogam um para dentro do espaço do outro, mostrar que a linha traça apenas uma formalidade facilmente borrada por tudo o que ela tenta conter.

Seus personagens tateiam com seus corpos a frequência, no sentido de ritmo e estado, que se encontram e que -por ventura- crie desencontros e atritos . A propulsão gerada por uma paixão de intensidade que se vê com a dificuldade mais primeira no que diz respeito às relações humanas, abrangente para outras variações que não só a amorosa, encontrar o equilíbrio, entender Onde -no outro- está a linha traça inicialmente no chão do galpão .

Essa barreira perde o caráter enevoado para se tornar concreta e efetiva em cena pelo soco que o personagem dá na parede, ali ele encontra o intransponível, algo que não dá abertura para ser adentrado, finalmente o limite.

Por meio de uma narrativa bastante voltada para o sensorial a cineasta trava o constante diálogo entre o que se encontra ao redor- pessoas, campos e sentimentos- com o que produzimos a partir disto.

Algumas das cenas mais poderosas do longa encontram sua potência justamente no fazer exterior aquilo que vai, pouco a pouco, tomando forma, iniciando seu processo na trama interna dos personagens e alcançando o filme .

O concreto e a fluidez se cruzam em discurso e materializam-se nas esculturas e na dança em um roteiro afinado na intenção de mostrar como as escolhas do que toca e é tocado por seus personagens ressoa.

O toque que compõem o afeto é o mesmo que constrói a escultura e conduz o corpo que  dança e tudo ali possui uma dose de atrito, seja na expressão de um limite prestes a ser cruzado para desaguar em um conflito ou nos viscerais, e tão carregados de vida e dança, instantes sexuais .

Pendular acerta ao construir uma trajetória repleta de tensões que se inflam e dilatam as emoções por meio de um tempo que consegue se transformar em uma espécie de infusão necessária para a maturação de seus personagens e do espectador.

 

Poster Oficial

 

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