Os Pobres Diabos | A Sobrevivência da Arte ou a Arte da Sobrevivência | Crítica

Por Julie Nunes

1h 38min – Drama – 2017
Direção: Rosemberg Cariry
Roteiro: Rosemberg Cariry
Com: Sâmia Bittencourt, Sílvia Buarque, Gero Camilo

 

A arte consegue por si, ao mesmo tempo, absorver e ser absorvida em uma relação de constante troca com seu meio no qual o todo é transportado como por entre filtros – perspectivas- que modulam em um resultado final diversas ideias, sensações e momentos.

O cinema, seja ele como for, não é diferente.

O cinema mundial obviamente, em suma o americano, possui uma eloquência e força quase dominadora e por vezes esse filtro se torna submisso aos esquemas rotineiros de uma colocação menos interna, que não necessariamente representa um mal mas coloca em questão e –geralmente- em cheque o espaço do cinema nacional.

Pobres Diabos não somente foge desse afogamento narrativo como questiona justamente esse monopólio que tanto joga o cinema nacional e seus próprios possíveis à margem em um espaço no qual a competividade chega a ser desleal.

O longa de Rosemberg Cariry narra a história de uma trupe circense nos confins do Ceará em busca da própria arte, do público e, claro, do sustento. Por meio de uma inspiração voltada para a literatura de cordel, o diretor evoca personagens que representam a grande dificuldade de compreensão do cenário maior, esses blindados e confinados por uma grande lona, só conseguem transcender a partir do momento que essa entra em chamas.

O cenário no qual o longa se dá, uma caatinga desértica, exalta o caráter nômade dos artistas, mas também uma certa deriva a qual todo artista se vê deflagrado em algum momento aonde é pouco palpável entender qual rumo tomar ou prever como será recebido.

Então, o que fazer, quais medidas são possíveis para enxergar um horizonte nesse campo repleto de areia e vazio? Uma forma, via única, não atende a questão e portanto maduramente seus personagens seguem em seus próprios caminhos.

Aliado a literatura de cordel o longa consegue se articular com suas intenções estéticas e de narrativa sem soar caricato ou pouco criativo.

A trama narrada nas cenas que a trupe está a encenar o espetáculo inteligentemente cria um paralelismo narrativo que auxilia e coloca as indagações dos personagens sobre sua forma de vida em um constante confronto que os próprios parecem não notar.

Contudo, há nessa construção um nível de exagero em sua duração, que por vezes se estende em um propósito que já está bastante demarcado.

Ao falar dos desafios artísticos através de personagens capazes de, mesmo que quase sempre por trás de suas personas quase fellinianas, exalar realidade.

O filme traz uma necessária melancolia para seu tom, pois apesar de todo o romantismo presente na condição de ser um artista- delicadamente é pontuado- que somos todos um pouco a medida que compartilhamos angústias, desertos, risos e sensações das mais variadas independente do lado do picadeiro que estamos e nisso há muito mais realidade do que ilusão.

Poster Oficial
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