Guarnieri | Documentário Enquanto Vínculo | Crítica

Por Julie Nunes

70 min – Documentário – 2017
Direção: Francisco Guarnieri
Roteiro: Francisco Guarnieri e Francis Vogner
Com: Gianfrancesco Guarnieri, Flávio Guarnieri e Paulo Guarnieri

Ao realizar um documentário toma-se o objeto e todas as suas dimensões para uma análise e geralmente disso surge a necessidade de desconstrução para só então recolocar os elementos que o cercam e tentar assim transformar tudo em uma identidade, por vezes mais do filme do que do objeto em si, e por essa qualidade oriunda do gênero é acertado dizer que não há como – pautado somente no objeto – saber o que esperar do discurso da obra.

Sim, isso se dá também na ficção mas no documentário parece haver uma expectativa sobre um alinhamento entre personagens e linguagem que pode ser rompido. Gianfrancesco Sigfrido Benedetto Marinenghi de Guarnieri é o personagem central do documentário “Guarnieri” realizado pelo seu neto Francisco Guarnieri e logo em seus minutos iniciais uma variada composição de acervo mostra diversos Gianfrancesco, o pai, o avó, o ator, o político, o compositor, são quase vinte minutos de filme até que entre o título da obra e assim de fato dimensionar que não será possível dar espaço para todos esses que Guarnieri foi, mas sim como todos esses estão diretamente ligados a uma questão chave apresentada por uma foto : a distância.

Muitos- até mesmo em seu nome- Guarnieri foi mais do que a grande maioria sabe tendo uma relação fortemente política como todos os seus trabalhos e vazando essa veia sobre sua própria vida de maneira que não é difícil relacionar Otávio, personagem de sua peça “Eles não usam Black-Tie” escrita em cinquenta e oito e adaptada para o cinema por Leon Hirszman nos anos oitenta, como o próprio.

Nitidamente Guarnieri foi um grande apaixonado por seus ideais e por sua forma artística de expressão, mas o que o documentário tenciona são os efeitos que isso gerou na própria família sem necessariamente se colocar como um tribunal pois, o que interessa aqui ainda é analisar a fratura existe na foto de família aonde Guarnieri está sentado no mesmo banco que o neto mas com uma visível distância. São apresentadas cartas do ator para seus filhos, essas que são carinhosas, mas que parecem atravessadas por tantas outras urgências que se tornam mais objetivas e curtas do que deviam de fato ser.

Mostra-se o sucesso como ator e o respeito que a imprensa lhe guardava, mas também aponta como isso recaía sobre seus filhos , também atores. Em certo momento uma entrevista com o próprio Guarnieri questiona sua influência na escolha da profissão de seus filhos e o próprio diz que, se houve, não foi consciente e logo em seguida acompanhamos mais falas que comentam sua ausência como pai.

“Guarnieri” não tenta ser um documentário didático sobre uma figura, não há data de nascimento, não há organização de sua carreira e sim um estudo sobre o homem que em tantos papéis que exerceu na vida teve uma dedicação imensa a sua forma de fazer política, sua expressão e arte. Contando com pouco mais de uma hora, poucos entrevistados – seus filhos e a condução de seu neto – o longa é um trabalho que lida com a linha entre a intimidade e a vida profissional e seu mais eloquente aspecto está em justamente questionar se há essa separação de fato.

Ao utilizar o sobrenome em seu título ele abre espaço para romper a barreira do personagem e ir além dele em sua busca e assim, cada vez mais intimo, ele se debruça também no que significa compartilhar esse sobrenome.

Em alguns momentos há a encenação de textos de Guarnieri, algo que fica no campo da homenagem e da indagação de quanto aqueles textos dizem sobre o personagem, não se trata de um recurso estético ou de linguagem mirabolante pois tudo no filme mantem um tom tão objetivo quanto as cartas de Gianfrancesco, mas em seu neto e seus filhos é sensível uma inquietude pela ausência mesmo quando esses afirmam admiração a entrega do pai a suas ideologias e trabalhos.

Não há grande sofisticação e nem uma pretensão de homenagem pura, mas justamente nessas nuances que reconhecem o homem falho e não o condenam está o diferencial do longa.

Poster Oficial

 

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