David Lynch: A Vida de um Artista | A Permeabilidade Elétrica de Lynch | Crítica

Por Julies Nunes

1h 28min – Documentário / Biografia – 2017
Direção: Jon Nguyen, Rick Barnes e Olivia Neergaard-Holm
Com: David Lynch

 

 

Um trabalho artístico, tal como seu realizador, é atravessado por influências e ressonâncias dos mais diversos tipos. Não existe uma ordem de filtragem na qual seja possível definir um único ponto de inspiração, apesar da capacidade de se recortar um tema, há também as interferências incontroláveis do meio que esse pode sofrer durante seu processo de criação.

Em David Lynch- A vida de um artista, o que se encontra é um sensível estudo de alguns dos elementos que tocam a trajetória artística, essencialmente seus trabalhos como artista plástico.

O longa deixa em evidência o fato de Lynch ter um trabalho que se relaciona em muitos níveis -e por diversos pontos de encontro -no qual é impossível dissociar ou limitá-lo apontando uma única vertente, assim, o que é explorado é a mente rizomática e a forma como o próprio, através de incursões em seus sonhos e vida, articula e revessa suas experiências.

A obra não poderia ter título mais apropriado para a construção de seu intuito. Abordando seus primeiros anos de vida, amizades da infância, transições da adolescência e o começo da vida adulta enquanto estudante de arte, o filme se dá por meio de relatos do próprio David Lynch – alguns durante seu processo de criação de telas ao lado da filha mais nova Lula- que, ao olhar para trás, identifica seus próprios movimentos e o quão sua própria vida toma partido de seu discurso.

O documentário dá espaço para a tranquila vida familiar que Lynch teve ao longo de sua juventude, realçando o fato de que sua singularidade surge enquanto uma densa pesquisa sobre o que lhe era mais distante, inquietações curiosas que se transpõem para sua arte.

A partir de uma busca pelo imaginário, se afastando quase totalmente dos filmes de Lynch, o documentário realizado por Jon Nguyen, Rick Barnes e Olivia Neergaard-Holm – sendo o primeiro também envolvido com a produção do documentário de 2007 chamado Lynch –  acerta ao apostar no cuidadosa progressão visual do artista, coletando com o próprio, em sua linha do tempo, as faíscas do que o tornariam um universo de dimensão considerável para um estudo rigoroso e que exige desdobramentos e desmembramentos.

É interessante acompanhar o lento processo osmótico pelo qual o longa passa absorvendo David Lynch para sua estética, uma trilha sonora que toma contornos de uma atmosfera claramente lynchiana, telas do artista que ganham vida por meio da animação, uma câmera que enxerga em seu objeto alguma banalidade, mas também muito mistério e dessa forma se mantém a certa distância mesmo que registrando sua intimidade.

Com uma narrativa minimalista e suave David Lynch- a vida de um artista alcança com sucesso as contrações que equalizam o universo de seu personagem e como consequência roça a complexidade que envolve um trabalho artístico, seja qual for sua ferramenta.

Lynch é atravessado por suas tintas, fluídos e sonhos, mas também atravessa o documentário rumo ao seu espectador tal como uma carga elétrica que se espalha atingindo, por seus diversos fios e obras, milhares de espaços.

 

Poster Oficial

 

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