Mãe! | Trama que Dispensa o Plot Twist | Crítica

Por Luísa Newlands

 

 

2h – Drama e Mistério – 2017
Direção: Darren Aronofsky
Roteiro: Darren Aronofsky
Com: Jennifer Lawrence, Javier Bardem e Ed Harris

 

* Plot twist: recurso de roteiro em que, em um determinado momento, a história muda completamente com uma grande revelação.

 

Lembro de ouvir de um professor na faculdade que o primeiro plano resume todo o filme. Desde então, passei a canalizar grande parte da minha atenção aos primeiros segundos, tentando entender toda a história com apenas um frame.

Na maioria das vezes o experimento dá certo, mas só é possível fazer essa analogia depois que sobem os créditos finais. Mas, quando se trata de uma obra autoral em que o diretor é conhecido, às vezes não preciso chegar nem no primeiro ponto de virada para saber o fim da história.

Não conheci Darren Aronofsky muito cedo. Na verdade, só fui pesquisar mais sobre o diretor depois de Cisne Negro (2010). Depois de Réquiem para um Sonho (2000) descobri que ele não é apenas conhecido pelos roteiros complexos e psicológicos, mas sim pela sua colaboração com o cinema como um todo.

O Hip Hop Montage, desenvolvido nesse filme pelo próprio diretor, ficou conhecido mundialmente como um recurso inovador de montagem, no qual são usados planos muito curtos e com cortes secos, nos quais o áudio quase compõe uma música. Enquanto a maioria dos filmes tem em média 600 cortes, Réquiem para um Sonho tem mais de 2 mil.

Considerando esse conhecimento prévio, fui à cabine de Mãe com uma expectativa muito alta. Além de ser mais um longa autoral de Aronofsky, ainda tinha como bônus Jennifer Lawrence e Javier Bardem atuando juntos… Mas Mãe é bem diferente daquilo que você já conhece do diretor.

A parte técnica, assim como toda a filmografia do Aronofsky, não deixa a desejar. O longa investe em uma fotografia bastante subjetiva, em que provavelmente metade dos quadros são fechados no rosto de Jennifer.

A grande inovação é o áudio, que com uma técnica de captação em 360°, nos dá a sensação de que estamos dentro do filme ao lado da personagem. Provavelmente essa experiência está restrita a algumas salas de cinema, então vale o investimento em uma sala com estrutura para esse tipo de reprodução.

Logo no começo somos apresentados aos dois personagens principais, ambos anônimos. Jennifer só conhecemos como “ela” (e mais tarde como “mãe”), e Bardem como “o poeta”.

O casal vive em uma enorme casa que lembra quase uma pintura à óleo, e não por acaso: a personagem de JLaw está constantemente trabalhando na reforma, pintando as paredes com uma tinta que remete à aquarela.

A princípio, a história parece bastante simples. Ele está em crise por não conseguir escrever nada novo, enquanto ela trabalha sem parar para deixar a casa em ordem. Então, em uma noite de chuva qualquer, um senhor bate na porta e pede para passar a noite, imaginando que ali fosse uma hospedaria.

Logo depois, chegam a esposa e os filhos desse mesmo senhor (também sem nome), e a vida da personagem de Jennifer começa a se tornar um inferno.

Com quase uma hora de filme temos o primeiro ponto de virada,  em que a história passa de um romance cotidiano a um drama psicológico. Porém, mesmo depois do conflito, ainda não sabemos o nome de nenhum dos personagens e nem o que eles estão realmente fazendo ali.

Tudo parece voltar ao normal quando Jennifer descobre que está grávida, mas a sensação de que a história ainda não faz muito sentido continua, mas não incomoda.

O roteiro misterioso começa a se tornar problemático no segundo ponto de virada, quando tudo que assistimos até então vira um caos. Por ser grande fã de Cisne Negro, achei que tudo aquilo fosse um surto psicótico, mas em nenhum momento a história se propõe a isso.

Quando o frenesi se torna exaustivo, com duas horas de tela, chegamos ao tão esperado plot twist. A revelação é mais chocante se você tenta construir uma narrativa própria da história com base em conhecimentos prévios sobre o diretor, assim como eu fiz.

Se o espectador nunca assistiu nada de Aronofsky, o plot não é muito surpreendente. Isso porque como diz meu professor, o primeiro frame resume a história. E o resumo inteiro de está no primeiros segundos do filme.

Por mais que Mãe tente apresentar uma grande alegoria sobre o processo criativo, não existe necessidade em um grande plot twist. Instaurou-se, depois de O Silêncio dos Inocentes, uma regra que suspenses só são bons quando se tem grandes revelações.

Mas, na maioria das vezes, o plot twist é dispensável e se torna um suicídio do próprio roteiro. Mesmo mantendo uma linha bastante autoral, as atuações não sustentam o roteiro confuso e o final acaba sendo bastante previsível.

 

Poster Oficial

 

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