It: A Coisa | Falha como terror, mas acerta na jornada infanto-juvenil.


Por Nincow Luciano

2h 15min – Terror – 2017
Direção: Andy Muschietti
Roteiro: Chase Palmer, Cary Fukunaga e Gary Dauberman
Com: Bill Skarsgård, Jaeden Lieberher e Finn Wolfhard


It – A Coisa estréia depois de 27 anos da mini-série e entre diversas releituras,
remakes e continuações de blockbusters de terror que ficam cada vez mais genéricos e saturados, dando um maior espaço para filmes independentes que surgiram e se destacaram no cenário de festivais, como o cult/hipster It Follows (2014), o artístico A Bruxa (2015), e o claustrofóbico It Comes at Night (2017), dentre diversos outros.

Porém essa obra apesar de suas falhas e deslizes em relação ao gênero que promete entregar, consegue conquistar o público por explorar um estilo de filme que há muito estamos carentes, aproveitando o espaço e um pouco do sucesso de Stranger Things, o que o faz ter uma qualidade mais próxima do segundo grupo citado acima do que do primeiro.

O filme demora a engatar devido a quantidade de personagens a serem apresentados que em sua maioria estão separados e que precisam se conectar, deixando os seus relacionamentos um tanto quanto superficiais, o que também se deve mais ao seu roteiro, mais por conta do diálogo do que exatamente a atuação das crianças.

Apesar de ser uma falha, esse aspecto realmente não interfere na experiência, pois devido aos seus 135 minutos de duração, bem mais do que normalmente um blockbuster de terror tem, e graças ao seu ritmo, referências da década de 1990 e nostalgia, o filme se torna mais leve e dinâmico.

O ponto mais fraco deve-se à falha e à preguiça na hora de usar recursos “batidos” do gênero, como jump scares e um excesso de efeitos especiais em CGI, tanto para a execução de cenas de terror, quanto para dar um estilo aterrorizante ao Palhaço Pennywise, tendo o resultado contrário, deixando ele com uma aparência artificial e apenas alegórica, fazendo com que os momentos onde sentimos a maior tensão não sejam necessariamente consequência da aparição do monstro, fazendo o terror estar menos atrelado à “Coisa”.

E quando a grande ameaça do filme perde destaque para as que deveriam ser coadjuvantes, o filme perde muito ao não se arriscar e ao invés de se conter e ser mais sutil, por deixar o uso dessas ferramentas muito claro, ele deixa de se transformar em uma grande obra de horror.

Porém, o filme surpreende ao usar corajosamente o gore para explorar a tensão com as crianças, sem necessariamente extrapolar ou se tornar gratuito, o que faz com que os conflitos enfrentados por diversos personagens sejam mais críveis e vulneráveis.  

A direção do argentino Andrés Muschietti é acertada e, mesmo sem explorar uma palheta de cores mais vivas, consegue exibir uma beleza diferenciada na decupagem.

Isso, somado também à alguns recursos de narrativa de terror, faz com que seja criada uma honesta analogia do quanto a realidade de uma criança pode ser mais aterrorizante e assustadora do que uma criatura que se alimenta do medo e imaginação infantil.

Explorando principalmente um recurso que há muito tempo não se utilizava em filmes de horror, que é a inocência infantil, recurso narrativo que, nos últimos anos, tem apenas focado em crianças amaldiçoadas ou com ligações com o sobrenatural, mas, em It – A Coisa, voltamos a ter crianças que mais estão vulneráveis aos diversos perigos, do que exatamente são responsáveis por eles.

Tudo isso torna essa obra uma deliciosa jornada infantil, principalmente pela lacuna deixada entre a primeira e a segunda temporada de  Stranger Things, série de grande sucesso da Netflix, que mantém o ciclo artístico cinematográfico de uma geração que foi influenciada pelos livros de Stephen King, agora inspiram filmes e reboots que trazem de volta esse doce lado da visão de uma infância mágica, porém brincando de forma lúdica o que seria amadurecer e enfrentar os medos e desafios que se  mostram.


Diferente dos muitos filmes, It, arrisca, ainda que não o suficiente para sair da zona de conforto de outros blockbusters da mesma categoria, ele satisfaz como um filme que, mesmo com a quantidade de violência e sangue, facilmente pode ser apresentado para crianças e assim revive no cinema um estilo de filme que estávamos carentes de ver, uma aventura entre adolescentes correndo pela cidade em suas bicicletas, resolvendo desafios sinistros e muito acima do que estiveram preparados a vida toda.

E timidamente questiona o espectador do seu verdadeiro medo de infância, se seria mesmo o escuro que você realmente deveria temer e qual seria o seu medo hoje, atualmente? Eu sei a resposta do meu, é muito simples: já que se abriu a chance de ter uma continuação de It – A Coisa, fazendo com que, caso alcance uma grande bilheteria (o que, provavelmente, vai acontecer), espero que os próximos filmes não caiam na ganância e se afoguem nas mesmas técnicas clichés que diversas obras de terror que saem aos montes todo ano, e que tanto prejudicam esse longa.

Poster Oficial

 

Inscreva-se no Canal e Curta a Fan Page
YoutubeCanal Claquete
Facebook/canalclaquete

Você Também Vai Gostar