13 Reasons Why | 1ª Temporada | Crítica

Por Luísa Newlands

13 Episódios – Drama
Criador: Brian Yorkey
Direção: Kyle Patrick Alvarez, Gregg Araki, Carl Franklin e outros
Com: Katherine Langford, Christian Navarro e Justin Prentice

 

No último final de semana de março, a Netflix disponibilizou a sua mais nova série original: 13 Reasons Why (Os Treze Porquês). Em apenas duas semanas no ar, a série alcançou um hype tão rápido jamais conquistado com nenhuma outra produção da empresa, nem mesmo Stranger Things. Isso porque por mais que a série com visual oitentista tenha caído nas graças do público devido à nostalgia, 13 Reasons Why alcançou um patamar acima por outra razão: trazer questões que a sociedade negligencia.

Há alguns meses escrevi, em uma resenha, que nós precisamos falar sobre suicídio porque ninguém fala. Existe um acordo tácito nos meios de comunicação de não noticiar autoextermínio; isso só ocorre em momentos muito raros. A Organização Mundial da Saúde apresenta uma série de recomendações na abordagem do assunto, as quais são foram seguidas à risca pela Netflix. Mas isso nós vamos falar mais adiante.

Em 13 Reasons Why nós conhecemos a história de Hannah Baker, uma adolescente de dezessete anos que decide tirar a própria vida. Diferentemente de Necktie Youth, em que nós não sabemos em momento algum porque a personagem cometeu suicídio, na série da Netflix Hannah grava 13 fitas em que conta os 13 motivos que a levaram tomar a decisão.

Cada motivo está relacionado a uma pessoa que, de alguma forma, machucou a protagonista. Temas como bullying, assédio, estupro, morte precoce, consumo de substâncias e viralização de conteúdo nas redes sociais são tratados sem nenhum tabu. Antes de alguns episódios há um aviso de que cenas chocantes virão a seguir e não são recomendadas para todos os públicos.

Antes de falar sobre a recepção do público e da crítica, questão central dessa resenha, queria pontuar algumas questões que poderiam ter sido melhor trabalhadas na série. Em primeiro lugar, por mais intrigante que o roteiro seja, há um gritante desequilíbrio entre as histórias contadas por Hannah e o impacto em sua vida. Se, por um lado, a série busca ser o mais fiel possível da realidade ao contar a história em ordem cronológica, por outro, os momentos de tensão se perdem de um episódio para o outro.

(Spoiler a seguir)

 

Para ilustrar, vamos pegar como exemplo as fitas destinadas a Justin e Bryce e a destinada a Sheri. É muito complicado Hannah equiparar os danos causados por um estupro a uma negligência em um acidente, por mais que esse tenha tirado a vida de um adolescente. Enquanto Justin e Bryce estão cientes dos seus atos, Sheri acaba cometendo um deslize não-intencional. Como se isso já não fosse o suficiente, a evolução em ordem cronológica faz com que a tensão entre o que acontece com Jessica na sua festa e o que acontece com Hannah na hidromassagem se perca. Além da história de Sheri, entre os dois episódios ouvimos a fita de Clay, que é um dos porquês mais sem sentido da série e que quebra a tensão desenvolvida pelos anteriores.

 

(Fim do spoiler)

 

Outro ponto desnecessário e que me incomodou profundamente é o curativo na testa de Clay para diferenciar o passado e o futuro. Por mais que o público alvo da série seja infanto-juvenil, a Netflix parece subestimar seu espectador ao achar que não é possível compreender o que é flashback e o que está acontecendo agora. A troca na paleta de cores de amarelo para azul um mecanismo comum e extremamente favorável, mas a produção optou por adicionar um recurso didático e bobo.

Porém, a série acerta muito mais do que erra, sobretudo por trazer à tona questões que não são retratadas de forma fiel pela mídia. Mesmo que os temas centrais apareçam em outras séries e filmes adolescentes, a abordagem de 13 Reasons Why vai a fundo ao tratá-las como causa de um problema maior: o alto índice de suicídio entre jovens.

Logo depois do lançamento da série, o crítico Pablo Vilaça nomeou a série de “altamente perigosa” não só por servir de gatilho para espectadores psicologicamente instáveis, mas por legitimar a ideia de que o suicídio imortaliza as pessoas. Mais que isso, Hannah passa a ser a protagonista da vida de todas as pessoas que a machucaram após tirar a própria vida. De fato, ambas constatações são relevantes, mas há uma distância entre o potencial local e global que a série possui.

Quando digo que há dois potenciais envolvidos, é porque a série traz duas consequências impactantes. A primeira, local, é de que a série funciona como gatilho para quem não tem condições de assisti-la. As ligações e e-mails para o Centro de Valorização da Vida, fundação que realiza apoio e prevenção ao suicídio no Brasil, dobraram após o lançamento da série. Se por um lado isso é excelente, afinal, há mais pessoas buscando ajuda, por outro pode ser que haja mais gente optando por essa saída. Pela perspectiva de Hannah, o suicídio é a única saída para a dor que sentia, e isso pode despertar atitudes perigosas a espectadores com problemas semelhantes.

Assim como as demais cenas fortes da série, o suicídio de Hannah é apresentado sem nenhum pudor. O corte dela nos pulsos é mostrado com um plano fechado, o que parte da crítica tem afirmado ser quase um tutorial de como tirar a própria vida.

Porém, discordo de quem afirma que o momento é romantizado. Na primeira temporada de Skins (2007-2012), uma personagem tenta tirar a própria vida em uma das cenas mais bonitas de toda a série. Cassie, enquanto toma várias pílulas e doses de álcool, dança com um longo vestido branco sobre um banco de maneira com vista para Bristol. Em 13 Reasons Why a cena está longe de ser bonita; ela traz muito desconforto para quem assiste.

Porém, o potencial global da série vai muito além da pontuação sobre a escolha de um plano ou de uma cena. Pela primeira vez uma série televisiva conseguiu trazer o suicídio ao debate público. Enquanto que parte da crítica e de especialistas afirma que a série é muito agressiva em sua abordagem, levantamos uma discussão acerca das reais razões as quais o suicídio é a segunda maior causa da morte de jovens e adolescentes (perdendo somente para acidentes de trânsito em que o condutor estava embriagado).

Nunca nenhuma outra série ou filme conseguiu fazer com que falássemos sobre a questão de forma tão aberta. Afinal, se uma série de 13 episódios pode ser gatilho para algumas pessoas, outros conteúdos disponibilizados na internet também podem. O que nós, como sociedade, vamos fazer a respeito?

13 Reasons Why é aquela série que choca, incomoda e te faz pensar sobre muitas coisas. Não tem como escapar, você acaba se identificando com alguém, seja com o agressor ou com o agredido. Mas o grande acerto da série não está na abordagem extremamente realista ou por atacar a raiz do problema. A série alcança seu objetivo por abrir um amplo debate sobre suicídio como questão de saúde pública.
Observação: após o término da série, há um mini-documentário intitulado “Tentando Entender os Porquês”. Recomendo que todos, que tenham assistido a série ou não, o assistam. O elenco e os produtores, durante 29 minutos, discutem sobre a escolha de determinados  planos e abordagens para as cenas da série, e o que buscavam passar com cada um deles.

Poster Oficial

 

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