Joaquim | Decapitado pela Estética | Crítica

Por Julie Nunes

1h 37min – Biografia – 2017
Direção:Marcelo Gomes
Roteiro: Marcelo Gomes
Com: Júlio Machado, Rômulo Braga e Welket Bungué

 

Filmes de caráter histórico costumam ser associados a diversas amarras didáticas com as quais parecem ter de prestar serviço. Claro, há casos e casos e nem sempre um formato mais objetivo terá um resultado burocrático ou tedioso; contudo, é interessante ver perspectivas que se arriscam em linguagem e forma tomarem para si projetos que contam com um cunho histórico. “Joaquim” conta, por meio de um recorte na história, quem era Joaquim José da Silva Xavier –  o Tiradentes – e nesta obra – interpretado por Julio Machado – antes de toda a inconfidência e se debruça sobre um homem anterior às ideias iluministas.


O cinema de Marcelo Gomes recorre ao personagem solitário com constância e em sua mais recente obra isso não é diferente, pois ali está retratado não o Tiradentes mártir, líder e representante de uma causa, mas sim o homem, seus anseios e natureza.

Aqui vale ressaltar o valor da natureza no pensamento do filme, sendo ela humana ou geográfica, ambas estão em contato direto com as alusões iconográficas com as quais o filme dialoga, como a escolha visual por manter quase toda a trama, ou boa parte dela, em terrenos acidentados porque o artifício aqui é justamente apresentar um homem fragmentado – inclusive ao iniciar o filme com uma narração do personagem enquanto vemos sua cabeça pendurada – e atormentado pelo o que viria a devorá-lo.

O longa, que pouco se prende às questões históricas mais marcantes da vida de seu personagem, permitindo apenas a entrada de um contexto mínimo sobre a condição de sua patente e sua inconformação com a mesma, realiza nesse aspecto sua investigação mais atraente sobre o protagonista, ao criar a imagem de um homem distante do mito e muito próximo das ambições e desejos mais primitivos.

Quando isso é colocado, “Joaquim” vislumbra o real potencial de sua ousada escolha. No entanto, toda essa construção fica à mercê de uma decisão estética que, por pretender demais, entrega muito pouco realmente.

Com um pensamento visual voltado para o destaque da luz quase natural e repleto de nuances, a obra se perde em tentar criar ainda mais elementos do que já possui para a naturalidade de sua narrativa, e assim faz um uso extremado de câmera na mão. Em si, o uso não é problemático, mas sim o exagero de todo movimento que ressalta que havia esse movimento.

Essa decisão não soa despropositada, mas a maneira como é realizada torna o filme, que conta com apenas uma hora e trinta e sete minutos. Isto, para além de cansativo, não reflete uma significativa mudança em sua leitura.


Outra questão que esbarra com o desprendimento e a linguagem do filme é a forma a qual os diálogos se constroem, não possuindo unidade alguma: por vezes mostrando-se coloquiais e outras, formais sem qualquer estrutura, deixando a impressão de um desleixo que pode, sim, nem ser o caso.

A composição não teve a atenção devida para essa mistura que é uma realidade no Brasil, e não seria nada descabido ver esse tratamento caso isto tivesse sido melhor conduzido. No que diz respeito às atuações, o filme oscila, e apesar de seu protagonista ter bons momentos como nas cenas de mineração, todo o registro de força se perde em meio ao alegórico recurso estético.

É necessário também pontuar a vitalidade dramatúrgica sustentada por Julio Machado e Izabel Zua. A atriz é um acontecimento dentro da obra e carrega consigo muita da densidade de todas as cenas na qual está presente.

“Joaquim” seria um marco caso não se perdesse nas tentações estéticas nas quais mergulha ao ponto de se afogar, mas nesse âmbito o filme e seu objeto se encontram em uma certa ressonância, uma vontade de ser que se torna um risco.

Ao discorrer sobre o homem como um ser devorado pelas próprias intenções, e vinculado aos moldes sociais de tal maneira que é incapaz de enxergar a si mesmo com clareza, o longa acerta ao finalizar com a obra de Adriana Varejão, tal como seu início, na representação do poder existente em um homem e seus destroços que, de tão particulares, alcançaram a história do país.

Poster Oficial

 

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