O Estranho que Nós Amamos | Nebulosidade de Giz | Crítica

Por Julie Nunes

 

1h 33min – Drama – 2017
Direção: Sofia Coppola
Roteiro: Albert Maltz e Irene Kamp
Com: Nicole Kidman, Kirsten Dunst, Elle Fanning

 

O cinema construído por Sofia Coppola tem suas marcas mais expressivas no que se debruça na sutileza singular de suas personagens femininas e nele é notório o distanciamento do suave – uma natureza estereotipada e ultrapassada do que é ser uma mulher- para dar espaço as nuances e delicadezas que um ato de impacto possa também conter em si.

Nesse aspecto há uma elaboração que visa explorar e acionar forças das mais diversas com o intuito de criar personagens que em sua simplicidade abriguem complexidade.

Em O Estranho Que Nós Amamos vemos narrada a história de um grupo de mulheres vivendo completamente isoladas, cercadas por uma guerra (no caso a Guerra Civil Americana), quando um cabo- do lado inimigo- gravemente ferido é acolhido por elas em um ato dito cristão.

A história é baseada no livro The Beguiled, de Thomas Cullinan, no qual também se baseia outra obra cinematográfica, de mesmo nome, do ano de 1971 dirigida por Don Siegel, retorna ao cinema em uma roupagem muito distante da que Siegel propôs com seu filme pretendendo com isso realçar tonalidades por meio de sua estética rarefeita.

Sofia ruma ao que se pode chamar oposto de Siegel e seu filme, ao não ser tão explícito e sair dos grafismos mais radicais, desenha a intenção de desenvolver camadas e dubiedades em sua trama- que é eficaz em tornar palpável a latência de um acontecimento de caráter inquietante – contudo, parece que pouco sobra para além do momento que os acontecimentos são irrefreáveis.

As poucas dubiedades então colocadas transformam-se em chaves polarizadas e previsíveis pois, a diretora parece encantada pela tensão sexual quase exclusivamente e realiza planos que se apoiam em facetas pouco criativas de seus atores, principalmente Colin Farrell que desempenha um trabalho caricato que contradiz a sutileza na qual a narrativa- tenta- se sustentar.

A distância que a diretora toma da guerra evoca um questionamento, já que essa não parece ser completamente isenta enquanto possível causa para o comportamento e medidas extremas das quais as personagens se valem, porém, pintada como um pano de fundo em uma peculiar proximidade física – vide os sons de canhões quase metrônomos  e fumaça próximos à casa- e um afastamento suficiente para que essa pouco seja mencionada ou mesmo capaz de impedir a colheita tranquila e destemida realizada por uma de suas personagens.

Contudo, não se trata da mesma distância criada em Maria Antonieta (filme de 2006 também dirigido por Sofia) que escolhe usar o ponto de vista de seus próprios personagens, monarcas que se isolam e cercam de imensa ostentação gerando revolta e a revolução que os leva para a guilhotina.

No caso citado o desfoque ressoa como uma extensão do caráter de seus personagens, que mergulhados em si pelas mais diversas razões, mas no caso da protagonista – em especial- por uma solidão brutal, se afogam. Em O Estranho Que Nós Amamos o coletivismo soa mais alto, há ali uma instituição, e a possível solidão não é uma questão tão primeira.

Apesar de reunir um elenco feminino notável esse não consegue expressar o que, individualmente, vinham realizando de melhor em suas carreiras tornando possível apenas destacar o esforço de Kirsten Dunst em trazer para tela uma personagem menos unidimensional do que suas outras companheiras.

Sofia Coppola ainda conta em seu currículo com a interessante adaptação cinematográfica homônima de As Virgens Suicidas de Jeffrey Eugenides onde é memorável a elegância com a qual se faz dos recursos visuais para apresentar de maneira sublime a violência do isolamento de jovens mulheres.

Já em O Estranho Que Nós Amamos, surpreendentemente no que se pensa quando se fala na filmografia de Sofia Coppola, a elegância é inócua tal como sua tentativa de dimensionar a violência ali presente.

 

Poster Oficial

 

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