Gal Gadot é Judia, Sionista e Feminista | E Não Tem Nenhuma Contradição Nisso | Artigo

Por Luísa Newlands

Eu não vou mentir: esse texto é um desabafo.

 

Desde que Mulher Maravilha foi anunciado como filme, uma quantidade incomum de fãs da DC se pronunciou na internet. Uma parte tinha receio de que o filme levasse o mesmo rumo de Batman vs. Superman ou Esquadrão Suicida; outra que o filme não seria lucrativo “porque super-heroína não dá dinheiro”; outra que a Mulher Maravilha fora escolhida como símbolo do feminismo, mas só representava o “feminismo branco”; e outra – a parte que mais me toca – que Gal Gadot é israelense e sionista, logo ela não poderia ser e representar uma personagem feminista.

Para a felicidade da Time Warner, dos fãs dos quadrinhos e das mulheres, Mulher Maravilha chegou aos cinemas com um feito jamais alcançado desde o lançamento da trilogia Batman de Nolan: sucesso de público, bilheteria e crítica.

Logo, os preconceitos iniciais – de que não seria um bom filme por ser da DC ou que não faria sucesso por ser sobre uma mulher – caíram por terra. Mas, por outro lado, os ataques foram direcionados não mais a personagem Diana, e sim a atriz que lhe deu vida.

Gal Gadot nasceu em Rosh HaAyin, Israel, em 30 de abril de 1985. Essa informação é mais importante do que parece. 

A década de 80 foi um período entre-guerras com uma boa perspectiva de paz no Oriente Médio.

Seis anos antes, o primeiro-ministro Menachem Begin havia assinado um tratado de paz com o Egito e devolvido parte do território ocupado desde a Guerra dos Seis Dias, em 1967. Porém, em 87, a comunidade árabe começou a “Primeira Intifada”, um levante contra a ocupação de territórios na Cisjordânia.

A esperança voltou no começo dos anos 90 com a eleição de Yitzhak Rabin e assinatura dos Acordos de Oslo, os quais deram o Prêmio Nobel da Paz para o primeiro-ministro e o líder da Organização para Libertação da Palestina, Yasser Arafat. Porém, Rabin foi assassinado por um radical israelense em 1995 e os acordos desandaram.

É importante lembrar também que Israel é um Estado recente: foi reconhecido pela ONU há apenas 69 anos. A geração mais nova é neta daquela que fundou o país. Além disso, o serviço militar é obrigatório para homens e mulheres. Dessa forma, o sentimento pelo Estado judeu, construído pelos avós, é muito forte e é um orgulho defendê-lo.

Gadot estava no exército em 2006, ano em que Israel estava em sua segunda guerra com o Líbano. É importante ressaltar que essa guerra tinha como objetivo dissolver o Hezbollah – grupo terrorista que atua na fronteira norte -, e que não tem ligação direta com a atuação do Hamas (que inclusive foi eleito democraticamente em Gaza um ano depois da guerra).

A Segunda Guerra do Líbano foi curta (apenas 30 dias) mas muito sangrenta, com muitas perdas de ambos lados. Os dois países fecharam um cessar fogo por intermédio da ONU, mas o sentimento de desgosto prevalece até hoje.

Mulheres no exército de Israel

 

Poucos dias antes do lançamento de Mulher Maravilha, o governo libanês proibiu a distribuição do filme em território nacional. Com o anúncio, textos de opinião e charges pipocaram pela internet criticando a figura de Gal Gadot como sionista e feminista… Como se isso fosse uma contradição.

Durante a Operação Margem de Proteção, em 2014, em que Israel entrou em Gaza para destruir os pontos de lançamento de mísseis, Gadot publicou em seu twitter mensagens de apoio ao exército de Israel. Esses tweets foram resgatados para afirmar que a atriz é “a favor do genocídio palestino e do imperialismo israelense no Oriente Médio”.

O conflito de 2014 teve muitas questões a serem levantadas, as quais dividiram o país muito mais do que a mídia brasileira foi capaz de mostrar.

Não há dúvidas de que Israel tem poderio militar muito superior a todos os países ao seu redor. Porém, não podemos esquecer (e, infelizmente, as charges, os textos de opinião e a mídia se esquecem) de que o Hamas também sabe fazer armas.

Em 2009, os mísseis de Gaza chegaram em Beer-Sheva, no centro-sul de Israel. Em 2012, em Tel-Aviv, no centro do país. Em 2014, em Haifa, no Norte. Mas Israel tem o Domo de Ferro, instrumento de guerra que implode mísseis no ar, além de um abrigo anti-bomba a cada esquina.

O governo israelense lançou mão de uma operação por terra em vez de buscar um cessar fogo, assim como não congelou a política de construção de assentamentos na Cisjordânia. Ações que, para mim, como judia e sionista, são entraves para a paz no Oriente Médio.

Porém, também não podemos esperar que as cidades do sul sejam bombardeadas todos os dias sem que o governo faça nada a respeito.

Enquanto participava de um programa de 10 meses em Israel, conheci Sderot, a poucos quilômetros de Gaza. Nosso guia nos contou que, no último ano, o alarme anti-bomba tocou lá mais de 200 vezes.

O que a população Sderot deve pensar a respeito das ações do governo? Se o caminho para paz está distante, devem esperar de braços cruzados?

Quando Gal Gadot diz que apoia o exército de Israel, ela não diz que apoia a morte de 2 mil palestinos e nem de 600 israelenses. Ela, assim como eu e como a grande maioria da sociedade israelense, acredita que o Estado precisa defender sua população (que se não tivesse estrutura, também seria massacrada).

Mas também acredita que o conflito não terá fim enquanto o governo mantiver as políticas de ocupação e o discurso de ódio for propagado de ambos lados.

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  • Marcus Pourroy

    Muito obrigado.

  • Celso Cavalcanti

    Desculpe me intrometer. O grande problema atual é a política de terra arrasada praticada pelo governo de Israel. Claro que os palestinos e outros povos árabes tem uma parcela significativa de culpa no problema. Mas, a política de terra arrasada, como respostas aos ataques ou como “prevenção”, só gera mais problemas. Vide Síria, Iraque, Líbia e Afeganistão. Os ditos “extremistas” islâmicos” usam a desesperança para cooptar pessoas para sua “guerra” nada “santa”. Sim, soar o alarme anti-bomba/míssil em Sderot é uma absurdo. Um ato desumano. O que dirá um palestino que teve sua cidade arrasada como resposta em razão do absurdo praticado por uns poucos palestinos ao atacar pessoas ou lançar mísseis contra o território de Israel?

    • Leo Jandre

      Gostei do texto e do comentário.
      Também acho a conclusão supersimplificadora.
      Israel é um país soberano e recente, mas também já tem sua cota de erros e injustiças. O fato é que tecnologia e competência militar superior fizeram o sucesso Sionista, mas suas contradições internas e relações com seus vizinhos, que também tem suas idiossincrasias e problemas, são um pesadelo para direitos humanos e relações públicas.
      Eu até gostaria de inserir fragmentos irônicos aqui, mas é um terreno minado para figuras de linguagem devido a poderem ser tomados como ofensas e insultos subjetivos.

  • Alexandre Sousa

    A resolução da O.N.U. deu aos judeus uns 55 % do territorio á Israel, mais da metade deserto. Se alguem errou foi as nações unidas, porque os judeus como qualquer filho de Deus tomaram posse. Agora tem um pais lá reconhecido pelo direito internacional. Os palestinos contrariamente á direito internacional não reconhecem um metro de terra que seja como sendo territorio de Israel e a primeira cidade que receberam com sendo deles, todo mundo sabe que só serviu para abrir uma frente de guerra contra Israel porque o lider do Hamas disse que a existencia de Israel é um fato, fato que eles vão alterar se puderam. Na minha opinião quando os israelenses sairem de Israel, e vão acabar saindo mesmo e levando tudo embora, só vai ficar uma região subdesenvolvida que vai acabar anexada pelos paises vizinhos. Isso porque a tecnologia é dos Israelense e vai embora com eles, e pode ser certeza que os arabes não vão conseguir plantar um pé de milho que seja. Os israelenses vão contruir um pais desenvolvido em outro lugar e os palestino e vão acabar migrando para outros lugares por que a unica coisa que muçulmano sabe fazer é matar os outros por causa de uma terra esteril que eles não serão capazes de lidar.

  • Fabio Bonfim

    “Eu apoio o exército, mas não suas atitudes”. Acho totalmente hipócrita isso, fora que ela serviu mesmo depois da construção do muro da cisjordânia. A autora desse texto se esqueceu de que esse conflito não é só Hamas x Israel, o povo de lá está sofrendo um Apartheid, não tem os mesmo direitos que cidadãos israelenses, são agredidos pela violência policial enfim. Texto lamentável 🙁

    • Pedro Amaro Lima

      Particularmente, não acho hipócrita.

      E vale lembrar que a autora viu muita coisa de perto, mais do que a maioria das pessoas e do jornalismo nacional. Eu ainda tenho dificuldade de tecer argumentos concretos sobre tudo isso, mas não condeno quem discorda de mim.

      De qualquer forma, Pablo, há discordâncias.